Depois do massacre na praia de Bondi, na Austrália, onde 15 pessoas foram mortas e cerca de 40 ficaram feridas, atingidas a tiro por dois homens armados com armas de guerra, o discurso dominante apressou-se a classificar o ataque como “terrorista” e a enquadrá-lo no registo do “antissemitismo”. Curiosamente, quase ninguém ousou usar a palavra “retaliação”.
O primeiro-ministro de Israel não perdeu tempo. Acusou o Governo australiano de “apoiar a Palestina” e, com isso, de “encorajar o antissemitismo”, num exercício previsível de instrumentalização política da tragédia. A acusação surge desligada de qualquer análise séria dos factos e serve sobretudo para reforçar uma narrativa conveniente, que procura isentar Israel de qualquer responsabilidade no contexto mais amplo de violência em curso no Médio Oriente.
Os atacantes pertencem a uma família oriunda do Médio Oriente, e tudo indica que o ato de extrema violência que perpetraram está diretamente ligado ao que se passa na Palestina — em Gaza e na Cisjordânia — mas também na Síria e no Líbano, territórios repetidamente bombardeados por Israel, total ou parcialmente ocupados, onde a população civil é sistematicamente alvo de ataques militares. Na Faixa de Gaza, a população palestiniana está a ser dizimada num processo que o Tribunal Penal Internacional já qualificou como genocídio, tendo emitido mandados de detenção contra o primeiro-ministro israelita e um antigo ministro da Defesa.
Desta vez, a habitual demonização genérica dos muçulmanos não ganhou grande tração mediática. Talvez porque um dos heróis que evitou uma tragédia ainda maior foi um imigrante sírio, muçulmano. Num ato de coragem excecional, registado em vídeo e amplamente divulgado nas redes sociais, Ahmed al-Ahmed conseguiu desarmar um dos atacantes.
Momentos depois, foi atingido por duas balas disparadas pelo segundo atirador. O herói da praia de Bondi encontra-se hospitalizado, já foi operado e está em recuperação.
Os atacantes eram pai e filho. O mais velho morreu atingido pela polícia, apesar de já se encontrar desarmado. O outro permanece hospitalizado, em estado grave.
Este ataque terrorista é, ainda assim, uma pálida amostra do que acontece diariamente na Faixa de Gaza desde outubro de 2023: mortes indiscriminadas, bombardeamentos cegos, tiros precisos de snipers israelitas, numa sucessão quotidiana de horror. Um cenário que, inevitavelmente, gera reações violentas por parte daqueles que se sentem compelidos a vingar a destruição de um povo inteiro – não por justiça, mas por raiva e desespero.


Importa sublinhar que o ataque não teve alvos aleatórios. Os atiradores dirigiram-se deliberadamente a uma celebração religiosa judaica que decorria na praia de Bondi. Entre as vítimas mortais encontra-se um rabino conhecido pelas suas declarações públicas de apoio e incentivo à destruição de Gaza e à eliminação dos palestinianos.


Nestas circunstâncias, ressurge o velho ditado popular: “quem com ferros mata, com ferros morre”. Ou, se se preferir, a antiga lei do retorno.
É neste caldo de sangue, horror e morte – alimentado por décadas de ocupação, impunidade e violência sistemática – que líderes como Benjamin Netanyahu encontraram o seu verdadeiro habitat político, um ambiente propício à perpetuação no poder, à custa de vidas humanas.




