O RECONHECIMENTO DA PALESTINA E AS INCONSEQUÊNCIAS

O MEDO PERANTE OS EUA E ISRAEL

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Nas últimas semanas, o mapa diplomático conheceu um novo abalo: Reino Unido, Canadá, Austrália, Bélgica e Portugal juntaram-se à maioria esmagadora da comunidade internacional no reconhecimento formal do Estado da Palestina. Na declaração do ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, transmitida em direto pelas televisões portuguesas desde Nova Iorque, para além do formalismo do acto de reconhecimento, não houve uma palavra sobre sanções contra Israel.

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Espanha já o tinha feito e foi mais longe: anunciou embargos comerciais a Israel e o bloqueio dos portos a navios que transportem armamento para Telavive.

Mas se 75% dos Estados-membros da ONU já reconhecem a Palestina, quantos ousaram sancionar Israel pelas violações reiteradas do direito internacional? Quantos se levantaram contra a espoliação sistemática de terras palestinianas, contra os bombardeamentos indiscriminados sobre civis, contra as prisões sem acusação – a famigerada “detenção administrativa” – que mantém milhares de palestinianos atrás de grades durante anos?

A resposta é: muito poucos. E esta contradição levanta a questão central: do que têm medo os governos que se calam e se refugiam em meras declarações políticas?

O MEDO QUE PARALISA

Para muitos governos ocidentais, afrontar Israel significa afrontar os Estados Unidos, o seu aliado incondicional. E esse risco não se mede apenas em termos militares ou diplomáticos, mas em consequências económicas, comerciais e financeiras: perda de contratos, pressão sobre mercados, boicotes velados.

Israel e os seus aliados dispõem de lobbies fortes em vários países. Uma decisão dura contra Telavive pode traduzir-se em perda de apoios políticos, ataques mediáticos ferozes e erosão de popularidade.

Qualquer crítica dura a Israel é, muitas vezes, confundida com hostilidade contra o povo judeu. Muitos governantes preferem evitar esse campo minado, receando ser etiquetados de forma injusta.

Reconhecer a legitimidade do Tribunal Penal Internacional para julgar Netanyahu e ministros israelitas implica também aceitar que outros líderes poderão ser julgados um dia. Nem todos os governantes estão dispostos a reforçar uma justiça internacional que um dia os poderá chamar a contas.

O CALCULISMO

Mas pode não ser apenas medo. A política tem também o seu lado mais cru: o calculismo pessoal. Para muitos líderes, a prioridade é sobreviver até às próximas eleições, preservar carreiras políticas ou preparar futuros cargos internacionais. Tomar decisões duras contra Israel pode parecer, no curto prazo, um salto para o vazio. E, no fim de contas, há sempre quem calcule que é mais seguro ficar na fotografia do reconhecimento, sem nunca arriscar a ação que poderia ter consequências reais.

Afinal de contas, há mais vida depois da política e todos eles têm mordomias a que se habituaram. Enfim, dependências difíceis de largar.

A INCONSEQUÊNCIA

Enquanto isso, a Palestina sangra. O reconhecimento, sem sanções, sem bloqueio de armas, sem apoio firme ao Tribunal Penal Internacional, torna-se um gesto simbólico, apropriadamente farisaico, uma cortina de fumo. “Eles” querem estar “no lado certo da história”, mas sem pagar o preço dessa escolha.

E talvez seja esse o drama: as lideranças sabem que há vida depois da política, mas preferem proteger a vida deles durante a política. A Palestina continua sem justiça.

AS EXCEÇÕES À COBARDIA POLÍTICA

O Tribunal Penal Internacional anunciou que o Brasil se juntou à queixa apresentada pela África do Sul contra Israel. Segundo o documento divulgado, o Brasil passa a participar na ação, subscrevendo a queixa datada d 2023, onde se acusa Israel de genocídio contra o povo palestiniano, entre outras malfeitorias.

A África do Sul entrou com o processo em 29 de dezembro de 2023. Depois disso, este tribunal internacional já emitiu mandados de captura contra dois governantes israelitas: o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant.

As acusações contra Israel e os seus dirigentes, decorrem da Convenção de Genocídio de 1948 que Israel assinou e, portanto, tem obrigação de cumprir.

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