OS CASTANHEIROS DAS “TERRAS DO DEMO”

Aquilino Ribeiro, que aqui trazemos muita vez em textos antológicos, era um supremo admirador da Natureza pela qual nutria aquele amor que os homens do Neolítico dedicavam aos seus deuses, fossem eles o Sol, a Lua ou a Terra identificada como deusa-mãe e eram eles que eram celebrados, tanta vez, com as primícias dos seus frutos ou com os fogos rituais que eram festa comunal, por ocasião dos solstícios de Inverno ou de Verão.

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Paisagens, arvoredo, cores da urze ou da giesta, estendal de neblinas ao amanhecer, poentes avermelhados, madrugadas de geada estaladiça, tronco ou fronde de castanheiro surgem nos seus livros tão reais quanto os seres humanos que os celebravam como heróis. Talvez os castanheiros se tenham tornado o seu amor maior. Nas terras de Aquilino. Hoje ainda. Daí o fragmento de um livro para ler.

“Até à altitude de 800 metros a árvore por excelência era o castanheiro, ainda mais que o carvalho, que deu o nome a lugares como Soutosa e que o serrano em anos de crise entregou à machada dos carvoeiros e negociantes de madeira, malta desaforada que se fartou de agiotar com o lenho que ouvi chamar a um velho bruxo ossos de Portugal, até à sua extinção.

Ultimamente, por esporádica iniciativa, porquanto afigura-se-me o indígena bastante refractário ao culto da árvore como o moiro, têm replantado com certa constância, e de novo colinas e vales começam a reluzir na sazão própria do verde tão magnificente dos soutos. No Outono, é maravilha ver, contra o fundo crestado das chãs, com os ouriços a arreganhar e o folhado a empalidecer, como suplantam em sumptuosidade tudo o que se possa imaginar de ourives pelas feiras e de velhos brocados numa missa de pontifical.

A par com os soutos, aqui e além, deparam-se ainda belas e extensas moitas de carvalhos. Alguns exemplares, admiravelmente soberbos, restam de pé.

Nas minhas digressões de caçador aconteceu-me umas tantas vezes abrigar-me dos aguaceiros no tronco lorgado dum roble onde caberiam à vontade cinco homens como eu. Acenderam o lume na sua cavidade e por maledicência ou descuido deixaram- no a lavrar. Depois que abateu, ficava ainda tão poderoso e o seu cerne tão duro que não houve serra que pudesse abarcá-lo nem aço que entrasse nele. Ali jazeu anos até que à força de lhe acenderem o fogo na carcaça se esfacelou e o puderam levar às carradas”.

Isto escreveu Aquilino no seu livro Aldeia. Terra, Gente e Bichos no ano de 1954.

Se hoje fosse vivo, sabe-se lá o que Aquilino escreveria ao ver o fogo bravo e iníquo dos últimos incêndios a consumir velhos castanheiros de 500 anos e esses soutos novos plantados agora, pelos netos, passadas tantas gerações!…

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