Os valados, património a não desprezar

20
1532

Dói-me o coração ao ir de Birre para a Areia, em Cascais, ao passear-me pelos terrenos a nordeste da Areia ou mesmo pelos campos a nordeste do Aeródromo de Tires.

É que, aí, as propriedades ainda estão, em grande parte, divididas por muros de pedra seca, os valados, cuja importância nunca será de mais salientar. E temo que isso se vá perder!

Primeiro, porque – a par dos moroiços, que são aqueles montes de pedra existentes nalguns terrenos de lavoura – constituem esses valados o sábio aproveitamento das pedras que havia pelo terreno e que foram sendo recolhidas precisamente para fazer esses muros que delimitam as propriedades.

Depois, porque representam a forma tradicional de delimitação e, como se comprova, pela sua durabilidade durante séculos, resistentes a chuvadas e, até, a tremores de terra, são mesmo funcionais e encerram invulgar beleza, dada a variedade dos seus componentes.

Caminho entre muros

Mormente no Alentejo, são esses valados e, de modo especial, os moroiços, muito benquistos pelos arqueólogos, dado que, amiúde, é neles – caso tenha sido por perto edificada uma villa romana – que acabam por se encontrar elementos arquitectónicos de relevo e, inclusive, pedras com inscrições. Uma mina!

Além disso, a sabedoria dos camponeses não deixou os seus créditos por mãos alheias e, por isso, nunca foi descuidada a relevante função do valado na retenção de terras e, também, pela cuidadosa destruição do seu traçado (por exemplo, de uns com outros em forma de ziguezague, como, hoje, aqui e além, se faz nas passagens de peões urbanas…), diminuem a velocidade das águas em caso de intensa chuvada, o que tem, complementarmente, a não menos relevante função de aumentarem a retenção da água no solo.

Para mim, algarvio do Barrocal, criado na infância e na juventude pelos terrenos agrícolas desta Cascais ocidental – outrora agrícola e de matos e, hoje, a ceder, escandalosamente, à suicida tendência de se impermeabilizarem os solos (põe-te alerta, vila de Cascais, que, vinda do Norte, a enxurrada agora espreita!…) –, para mim, o valado é uma obra de arte. E muito me agradaria que arquitectos e paisagistas, ao delinearem as vedações das propriedades, se não importassem de manter valados existentes ou, na necessidade de outros construir, usassem as resistentes técnicas de antanho. O que eu regozijaria!

Em S. Bartolomeu de Messines – a protecção das casas

Volto agora, por isso, ao Barrocal, onde docentes da Universidade do Algarve estão empenhados num projecto de preservação e reabilitação dos valados, inclusive chamando a atenção para as perspectivas turísticas que proporciona.

Do artigo «Renewing terraces anda drystone walls of Algarvian Barrocal, Cultural anda touristic values», em que preconizam a valorização e renovação dos valados no Barrocal algarvio, sublinhado o seu valor turístico e cultural, da autoria de Marta Marçal e Gonçalo Prates, a que se juntou Stefan Rosendahl (da Universidade Lusófona) – acessível em http://hdl.handle.net/10400.1/10342 –, transcrevo a seguinte bem elucidativa passagem:

«No entanto, é precisamente este “pequeno” património que gera uma maior identificação com o lugar e com as raízes e a terra das pessoas. É o principal definidor do genius loci e da identidade cultural de cada comunidade.

Vale, Serra de Monchique

Aparentemente, são elementos simples, sem grande importância, mas quando se começa a estudar e a investigar as técnicas, a localização, as suas características construtivas, e por que razão são assim, este património revela uma complexidade inerente, tanto no manuseamento como no desenho e na construção, que não seria de esperar num “património menor”.

No caso das construções em pedra solta – ou seja, pedras empilhadas sem qualquer tipo de aglutinante –, à primeira vista e para um observador menos atento, as pedras parecem dispostas ao acaso, seja nas paredes ou no território; no entanto, a permanência destas construções revela, por parte do construtor, um sentido de equilíbrio e uma arte na montagem da alvenaria que está longe de ser simples.

Isso se tem verificado e importa, por conseguinte, preservar o que, mui sabiamente, os antepassados nos quiseram legar.

Barrocal algarvio

20 COMENTÁRIOS

  1. De: Lígia Inês Gambini
    14 de abril de 2025 11:24
    Bom dia, Caro Prof.
    Pena este texto só ter chegado agora. Fiz há pouco um parecer sobre os muros de pedra seca de Sicó que teria beneficiado com esta informação!

  2. De: Alberto Correia
    14 de abril de 2025 12:21
    Importante a chamada de atenção para este património.
    Por aqui [Viseu] chamamos aos “valados” simplesmente muros. “Valados” são os regos abertos ao longo do tempo para escoamento das águas. De maior ou menor dimensão.
    Escrevi um dia um texto sobre estes muros de pedra miúda, lhe chamei, de “pedra seca”, os chamei depois, muros que começaram a ser roubados por espanhóis que entravam na fronteira para roubar as pedras ou para as comprar. Uma história que chamou a atenção para a sua valorização.

  3. De: Elvira Bugalho
    14 de abril de 2025 14:08
    Sou também uma admiradora desses muros velhinhos e que dizem tanto da vida de quem os construiu e da população circunvizinha.
    Em Inglaterra são Património… por cá são derrubados.

    • Olá José. Não precisa de ir tão longe… Em Espanha, em especial na Catalunha, esses muros são estimadíssimos. Criaram uma plataforma designada wikipedra para que as pessoas possam colocar a informação recolhida quando, por exemplo, andam a passear. Vá lá dar uma espreitadela!
      Também sabia que a arte de construir muros de pedra seca é Património Imaterial da Humanidade? Infelizmente, Portugal não assinou 🙁
      Boa Páscoa

  4. De: Teresa Gouveia
    14 de abril de 2025 15:06

    Mandaste o artigo à pessoa certa!
    ADORO muros de pedra ! Estão a desmoronar-se e a desaparecer por todo o lado.
    É mesmo um património em perigo e o problema é que ninguém lhe atribuí valor..
    Uns selvagens ..
    Enfim

  5. De: José Cardim Ribeiro
    14 de abril de 2025 16:30
    Também eu sou um apaixonado pelos muros de “pedra curraleira”, como por aqui se diz (ou, talvez melhor, dizia…). Através dos campos sintrenses, felizmente, ainda há muitos – alguns mesmo monumentais –, embora de facto já não tantos como outrora. E, como hoje quase ninguém cuida deles, terão tendência, com o passar dos anos e as intempéries, a cair pouco a pouco, sendo quase certo que, na maioria, acabarão substituídos por vedações de tijolo e cimento.
    Talvez não fosse mau pensarmos numa pré-proposta de classificação dos conjuntos mais interessantes, por esse país fora. Claro que uma coisa seria pré-propor, outra propor mesmo e, ainda outra, fazer o levantamento… Nós ficaríamos pela conversa…
    O teu texto merece muito edição em papel. Pensa nisso.
    Parabéns pelo belo escrito e pela tão oportuna ideia!

  6. De: Jorge Santos
    14 de abril de 2025 16:44
    Gostei de ler e dar atenção aquilo que nos parece tão banal, mas afinal com história, suor, necessidade e amor. De facto, por trás de uma parede estão muitas vidas.
    Mas Trás-os-Montes, designadamente o Douro Vinhateiro, está cheio de paredes de xisto, em pedra solta, para retenção das terras para o plantio das vinhas. Todas feitas a ferro e pá pelo braço do homem transmontano e pelos galegos que vinham trabalhar para o Douro no século XIX. Os restos dos mortórios, que ainda existem, conservam essas paredes intactas desde há séculos. Há pinhais agora nessas terras onde as vinhas morreram nos tempos da filoxera. Mas desde os anos 60 as retroescavadoras fazem os socalcos em patamares de terra para o plantio das vinhas novas. As paredes são história no Douro.

  7. De: António Campar
    14 de abril de 2025 17:44
    […] Já há trabalhos feitos por colegas nossos sobre as virtudes desses valados nas áreas serranas. Entre outras virtudes têm o condão de evitar grande parte da perda de solo por erosão.
    Isto é um património que devia ser preservado a todo o custo.
    Força na continuação da divulgação destas obras e de outras também importantes.

  8. Quando a morfologia do solo é em declive acentuado, no ato de implementação da agricultura exige a “armação” da terra pelo recurso à construção de muros / arretos de pedra seca para segurar as terras arroteadas que são designados:

    – Valados no Barrocal, Algarve;
    – Socalcos no Planalto Beirão;
    – Poios na Ilha da Madeira.

    Grande abraço

    José Azevedo e Silva

    • Olá. É bom saber essas designações. Desconhecia a terceira. Na Serra de Monchique também têm outra designação, mas não me consigo recordar qual. Alguém se sabe?

  9. De: ADIM MONSARAZ
    Enviada: 15 de abril de 2025 11:07
    Infelizmente, ó caríssimo Dr. Encarnação, tudo se vai, e todo o conhecimento que está plasmado na paisagem, construída e mantida, alterada e tratada laboriosamente pelo homem ao longo de milénios, está a desaparecer: caminhos, portos, muros de pedra, passagens de ribeiras e linhas de água com pedras (algumas com pedras talhadas de origem romana), pontões, poços, noras, galerias ripícolas, charcas, nascentes, fontes, alinhamentos de árvores, sebes de protecção dos ventos, patamares de sustentação do solo para cultivo de hortas, árvores de fruto, e pequenas produções de cereais ou outros, moinhos, moagens e outros engenhos variados, lagares rudimentares, redis para animais, bebedouros talhados na rocha, assentos diversos de pastores (entre eles cabanas com base em pedra), enfim…
    São milhares de marcas na paisagem, construídas ou arranjadas pelos homens, que vão desaparecendo, seja pelas novas culturas (vinha amendoal, olival) seja pelos novos missionários da cultura urbana, sedentos de vir para o campo destruir o que lá está (não só por desconhecimento, mas também por sobranceria) que compram montes em ruína ou abandonados e a primeira coisa que fazem é demolir tudo e arrasar o terreno, porque “são paredes de terra e pedra podres”.
    Mas não há nada a fazer: o “progresso”, o “desenvolvimento”, o “turismo” e a “economia” valem muito mais do que o património, o conhecimento, a paisagem e todas essas heranças. Tudo “sustentado” e com “energias renováveis”, e com uma ajuda (forte) de muitos autarcas néscios e pantomineiros, que apenas trabalham para a sua própria vaidade e para garantir a reeleição, a única e grande finalidade da sua actuação, esquecendo que os lugares de eleição são serviço público e gestão do património público, e não auto-promoção e satisfação dos seus egos (e tantas vezes também do seu património privado).

  10. Grata por este texto, José d’Encarnação.
    Depois de ter visitado há muitos anos a tumba de Agamenon, perto de Micenas, no Peloponeso, passei a reparar melhor em todos os sábios alinhamentos de pedras antigas, como os socalcos, ou estes valados mais singelos, mas de tanta harmonia “arquitectónica”.
    Lá, desde o corredor a céu aberto, até à tumba abobadada construídos por volta de 1250 aC, como cá por tantas zonas rurais, as pedras falam, revelam uma força que dispensa qualquer outro elemento “aglutinante”, como dizes no texto.
    Mostram ainda uma engenharia humana que sabia conjugar os vértices e os vãos do material disponível, a pedra ali à mão.
    Uma sabedoria milenar que não devia ser alienada, mas reconhecida como património material da Humanidade.

  11. De: Jorge de Alarcão
    Enviada: 15 de abril de 2025 11:32
    Interessante o apontamento sobre os muros de pedra seca que, mais do que divisórias de propriedades, eram o meio de sustentar os socalcos.
    Apesar de não serem construídos com argamassa (muitas vezes são construídos com um ligante de barro ou simplesmente de terra) são muito sólidos. Mais sólidos do que os muros hoje construídos com blocos de cimento, porque deixam passar a água e os socalcos não ficam encharcados: a água não se acumula por detrás dos muros,exercendo pressão que muitas vezes leva à ruína dos muros de cimento.

  12. De: maria helena coelho
    14 de abril de 2025 19:33
    Os valados deslumbram-te, e bem, pois são “obras de arte”.
    Eu, pela minha parte, numa intervenção de ano passado, reflecti sobre valas e valadores, homens e obras que no passado foram fulcrais em terrenos alagadiços.

  13. De: Cristina Neves
    15 de abril de 2025 18:39
    Quando era criança e vinha de férias para o Algarve, um dos sinais de que estávamos próximos da casa dos “Vilarinhos”, eram os muros caiados de branco e com a pedra cinzenta em cima. É um valado coberto de argamassa e cal, pois servia de limite às casas e respectivas propriedades.
    Há imagens que nos ficam e são muito fortes pois têm uma densidade de raízes.

  14. Muito me enriqueceram, confesso, os comentários que fui recebendo. Apanhei um raspanete por ter cedido à tentação de falar em muros de pedra seca, porque essa designação é tradução à letra de outras línguas, que não a nossa, onde a terminologia correcta é «muros de pedra solta», até porque, quando chove, as pedras deixam de estar… secas.
    Fui também informado de que essa arte de fazer muros foi integrada pela UNESCO, em 2018, na lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade (convenção que os espíritos tacanhos do Portugal político houveram por bem não assinar) e de vários livros publicados sobre o tema, de que cito
    https://www.uc.pt/fluc/nicif/Publicacoes/Estudos_de_Colaboradores/PDF/Livros_e_Guias/Projeto_Terrisc_2006
    https://www.uc.pt/fluc/nicif/Publicacoes/Colectaneas_Cindinicas/Download/Colecao_VI/1_Socalcos.pdf
    E em diversos municípios portugueses se está já a dar atenção a essa arte, da maior importância para a prevenção dos riscos naturais.

  15. Parece que os organismos oficiais portugueses foram na conversa do ‘pedra seca’… Enfim… Em todo o caso, cumpre dar conhecimento de que o processo Arte da construção dos muros em pedra seca no Maciço Calcário de Sicó está para consulta em https://matrizpci.patrimoniocultural.gov.pt/InventarioNacional/DetalheFicha/1038?dirPesq=0 .
    Há já parecer com proposta favorável para a inclusão no Inventário Nacional. Dentro em breve estará na fase de Consulta Pública em https://www.patrimoniocultural.gov.pt/salvaguarda/consultar/CONSULTAS-PUBLICAS/

  16. Natália Fauvrelle
    23 de abril de 2025 12:44
    Também li com muito interesse o seu texto sobre os ditos muros de pedra seca, ou pedra posta ou pedra solta… pois lembrei-me de imediato da minha paisagem do Douro. Essa foi a minha área de doutoramento em Museologia – trabalhei a paisagem como património e como tal passível de ser gerida como qualquer outro património, isto a propósito de o Douro ser património mundial e continuar a ser gerido numa lógica de ordenamento do território onde as lógicas patrimoniais estão marginalizadas.
    O termo “seca” vem do facto de não conter argamassas e era assim que o povo chamava. Visto tratar-se de um património vernacular, o termo parece muito bem, permita-me que diga. Assim como a tal “pedra posta”, pois também reflete o facto de ser colocada em camadas sobrepostas sem argamassas. Acho que aqui a terminologia deve seguir o vernáculo da terra onde se faz.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui