A política portuguesa vive tempos em que a coerência parece, cada vez mais, uma qualidade facultativa. A recente posição do Chega é o mais recente exemplo. Depois de ter apresentado uma moção de desconfiança ao governo de Luís Montenegro, agora admite não excluir alianças com o PSD caso as explicações sobre o caso da empresa familiar agradem a André Ventura.
Não se trata apenas de um volte-face tático. Trata-se de uma demonstração clara da facilidade com que certos protagonistas políticos dizem uma coisa e, pouco tempo depois, o seu exato contrário, sem sombra de embaraço, sem sinal de arrependimento, como se a memória coletiva fosse descartável.
Na verdade, o Chega já mostrou ao que veio quando, nos Açores, o apoio ao PSD foi retirado e depois parcialmente reavaliado consoante as conveniências. Nada garante a Montenegro que o mesmo não lhe venha a acontecer.
É o triunfo do pragmatismo absoluto. A coerência ideológica cede ao cálculo eleitoral, e a firmeza moral é substituída por um jogo de forças que visa maximizar influência a qualquer custo.
Para quem ainda espera da política um mínimo de seriedade, este tipo de reviravolta causa pasmo. Não se trata de flexibilidade ou abertura ao diálogo. Trata-se de maleabilidade oportunista, que trata a opinião pública como amnésica ou indiferente. E isso, mais do que qualquer escândalo em concreto, é o que verdadeiramente corrói a democracia.



