Canção para um cão

Enternecem-nos sempre, mui dolorosamente, essas cenas. A casa foi um drone que a destruiu ou o tremor de terra que a desmoronou ou as chamas vorazes que a estão a devorar. Em primeiro plano, porém, o repórter – emocionado ele também – captou a senhora, a criança, o dono da casa que, lancinantes, apertam contra o peito o canito, o canzarrão, o gatinho que lograram salvar.

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Percebemos bem.

São eles as suas companhias, são eles que, meigos, lhes aceitam os carícias, num suave ronronar, num gemido terno – quando os outros, os humanos, se entretêm, longe mas perto, com um iluminado rectangulozinho pejado de letras e de imagens…

Eles, a companhia de que não querem prescindir. Que se danem os haveres, as loiças, os lençóis!…

Como a maior parte dos humanos mortais, também eu tive muitos gatos, só tenho um agora, que diariamente espera, paciente, que eu o vá escovar, quando for, de manhã, lavar os dentes, e que adormece, à noite, aconchegado à dona.

E um labrador, que recebi já com nome: Spike. De Spike, o irmão do Snoopy (dos Peanuts de Charles M. Schulz), que vivia sozinho no deserto da Califórnia e, a 4 de Agosto de 1975, escreveu ao irmão a anunciar que o iria visitar; por isso, a sua primeira aparição data do dia 13 seguinte. O nosso Spike veio mais tarde: nasceu a 4 de Janeiro de 2015 e está connosco desde 18 de Agosto de 2017.

Meigo e inteligente como todos os labradores, cativa os vizinhos, saúda toda a gente e cativou, de modo especial, a minha amiga Eugenia Serafini, de Roma, pintora e poetisa. Nas mensagens, além dos abraços para nós, vem sempre um terno croquete virtual para o Spike. Anteontem, porém, não resistiu e reagiu assim à foto dele que lhe enviei, fazendo minhas as suas palavras:

Non hai parole dolci o amare
amico Spike
ma teneri sguardi e
bisbigli sinceri mentre
attendi il mio ritorno
e riconosci il passo lungo la via
che mi riporta a casa
nel giardino dove i fiori profumano l'aria e
gli uccelli si posano a cantare
al ristoro del caldo gli alberi e i frutti succosi
E io torno a te
come 
allora
Ulisse!
Eugenia per Spike

Não resisti também eu e verti para português esse italiano poema:

Não tens palavras doces nem amargas
Spike amigo
terno é o teu olhar
mui sinceros teus sussurros
enquanto esperas que eu volte
e reconheces meus passos
logo na rua ao pé de casa
no jardim onde as flores perfumam o ar
os pássaros poisam cantando
as árvores e seus suculentos frutos
aguardam que chegue o calor
E eu volto para ao pé de ti
como o Ulisses
d’outrora!

Quiçá estranho mundo seja este, onde cada vez nos apetece mais o refúgio da Natureza pura, o inspirador afago dos nossos animais!…

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