GATINHOS FOFINHOS NA PRISÃO

As prisões são de tijolo, cimento, betão e aço e habitadas por pessoas difíceis, endurecidas pela vida. Lá dentro, segundo dizem, a dureza é obrigatória, uma ferramenta da resistência. Os fracos, os mais sensíveis, correm sérios riscos de se transformarem em presas. Reclusos e guardas prisionais vivem neste ambiente, em trincheiras opostas.

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Nos EUA há um projeto que dá relevo a estes problemas, no sentido de procurar suavizá-los. Nos States, o sistema prisional é muito mais violento que o português, por exemplo. E não é só porque eles aplicam a pena de morte e os chamados “corredores da morte” estão cheios de homens à espera da execução da pena sentenciada. É também pela desumanidade inerente a penas de prisão perpétua ou pela impossibilidade de ter alguma vez saídas precárias para que os reclusos possam ter um vislumbre do que é a vida e alimentem o desejo de se reinserirem na sociedade. Lá como cá, o sistema falha pelo lado da reinserção.

O projeto de que falamos chama-se “Jornalismo na Prisão”, tem site e e corre pelas redes sociais. Publicam relatos sobre o que se passa dentro das cadeias, aproveitando a existência de haver gente encarcerada com vontade de escrever sobre esse mundo.

Há relatos muito interessantes. Há quem escreva sobre “gastronomia” prisional ou sobre assistir a uma furação através das grades da cela. Outros escrevem sobre prevenção de doenças ou sobre o frio nas celas durante invernos rigorosos.

primeira página do site Prison Journalism Project

E há histórias simplesmente deliciosas, como a de uma cadeia na Califórnia onde uma gata prenha foi capaz de transformar os dias de uma série de gente bruta.

“No início, havia apenas um, um cauteloso gatinho laranja que rondava o quintal da prisão e assombrava os espaços proibidos além das cercas como o fantasma de um mundo há muito esquecido. Observamos por trás de vidro e aço e arame e cimento, vimos como ela perseguia pássaros, como ela era livre e, no entanto, escolheu estar aqui, conosco,” assim começa a reportagem sobre esta gata, assinada pelo recluso Cameron Terhune.

A bichana engordava com os pombos que caçava e a comida fornecida pelo Estado que os reclusos partilhavam com ela. “Prisioneiros mal alimentados guardavam comida para oferecer a esta doce criatura”, relata o repórter encarcerado.

Mas, afinal, a gata não engordava. Eles só perceberam isso quando apareceram os filhotes nascidos naquela prisão.  “Uma ninhada de gatinhos” que espantou os espíritos mais sombrios.

A partir desse momento, houve um pacto entre reclusos e guardas. Todos passaram a pertencer a esses gatos, tornaram-se responsáveis por eles.

“Depois, claro, acariciámo-los”, confessa Cameron, convertido ao poder da ternura. Não há como evitar. “Eu não tocava num gato há 15 anos”, diz o recluso retratando uma realidade absoluta naquele ambiente. E o relato continua falando da alegria sentida, das brincadeiras dos gatinhos e da sensação de estarem perante animais livres, apesar de viverem numa prisão de homens.

“Passei muitas horas com esses gatos, e ainda estou espantado com a perfeição com que rejeitam tudo o que significa estar na prisão. São brincalhões e inconscientes…” e conseguiram derreter corações, confessa o repórter que, quando um gato pulava para o seu colo, deixava de pensar em tribunais, sentenças, prisões.

É UMA IDEIA…

“Jornalismo na Prisão” pode ser feito em Portugal. No Duas Linhas publicaríamos com gosto os relatos que nos chegassem por escrito, sobre o dia-a-dia nas prisões. Sabemos bem que estamos a falar de reportar problemas difíceis, realidades duras, sofrimentos horríveis.

Gatinhos fofinhos numa prisão é uma história que não serve de retrato, apesar de ser uma ideia fantástica capaz de melhorar algo que não presta.

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