ALFAIATE OU TOSADOR

UM MONUMENTO SINGULAR EM FERREIRIM

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Porque escondida do grande público, traz-se agora a lume a imagem do que chamo ‘um singular monumento’. Singular monumento de uma cultura de que se ignora, por inteiro, o sentido.

Encontra-se este, aparentemente estranho, monólito de granito de grão fino de uma aveludada cor temperada do sol, encastrado no muro de antiga habitação ora reconvertida para sede da Agência de Crédito Agrícola Mútuo de Ferreirim (Sernancelhe).

Memórias que subsistem recordam-no colocado no exterior da habitação, desprendido de anterior pouso para onde fora concebido, utilizado como assento em mornas tardes de Verão… E lembra-se ainda a gente de ouvir dizer que, nessa habitação, terá tido oficina um antigo alfaiate.

A curiosa pedra, em bom estado de conservação, tem de comprimento 182 cm e largura de 41 cm, não sendo agora possível determinar a espessura de que pode medir-se apenas o ressalto de 7 cm observável a partir do muro a que se encontra acoplada.

Apresenta uma iconografia que, por mais que legível, não se torna, todavia, susceptível de fácil interpretação.

E assim lemos, com facilidade:

– a representação de duas tesouras, uma delas de modelo arcaizante, funcionando mercê da pressão dos dedos sobre o dorso das lâminas presas de um anel anterior concebido como mola;

– outra, de feição mais recente, constituída pelos dois habituais anéis para a introdução dos dedos que farão movimentar as lâminas sobre um eixo que o artífice deixou em suspensão, talvez por inabilidade.

Ignoro até que tempo terá permanecido, particularmente ligada ao ofício de tosquiador, o tipo de tesoura de mola como a que se oferece no primeiro registo. Pode ver-se o manuseio de uma tesoura como esta no Western de 1969, onde Gleen Ford é cartaz e cujo título original é Heaven with a gun, traduzido para o título português de O Céu à mão armada (1969).

Oferece-se ainda, em fundo desenho, como os primeiros, uma estrela de cinco pontas e, sobre o ombro da mesma, uma imprecisa figuração, provavelmente intencional também.

O sulco longitudinal – com a exacta medida de 110 cm, a justa medida de uma “vara” de medir que as tecedeiras mantiveram até recente data – parece antes constituir-se como instrumento de adorno, definindo o vão de um espaço para onde a pedra teria sido concebida. Subjazendo, de um e outro lado do sulco, deixando ao meio um curto vão, marcou o pedreiro dez semiesferas, cinco de cada lado, sendo ainda perfeitamente perceptíveis as do lado direito de quem olha.

As duas superfícies planas nos extremos do bloco fazem crer que a pedra foi concebida como torça, lintel ou padieira de um vão, que poderia ser de uma porta mas que, ao caso, se destinou a uma janela. A prová-lo, está o intencional espaço já referido e que medeia entre os dois núcleos das semiesferas, cujo interior, não observável à vista, foi cavado para introduzir com segurança um novo elemento, ao caso o topo de um colunelo que faria da referida janela uma elegante janela geminada.

E se assim fica conhecida a anterior funcionalidade mecânica da torça, outra coisa não se passa com o significado dos registos iconográficos. Alfaiate ou tosador – ou as duas coisas – poderia ser o dono da habitação com tal janela.

Fica de fora o significado esquisito dessa estrela de cinco pontas, antes mágico que indicador de qualquer outra natural categoria.

Quanto à época da feitura, parece-me poder atribuir-se ainda a finais do século XV ou inícios de XVI, por onde se estende o uso de uma tardia gramática de matriz românico.

Igreja de Ferreirim
Ferreirim, fonte medieval

2 COMENTÁRIOS

  1. A fonte de tradição românica foi há muitos anos restaurada com a minha orientação; pedi para ser classificada como Imóvel de Interesse Concelhio e assim é

  2. Singular, sem dúvida. E não percebendo eu nada da matéria, leio avidamente tudo quanto diz respeito a pedras antigas (aqui “antigas” com muita ou pouca longevidade) e ao significado das inscrições que tanto dão que pensar aos especialistas.
    Agradeço o texto, muito bem elaborado.
    Quanto às tesouras, não há dúvida, diz o autor. Em relação ao significado da estrela de cinco pontas (olhando de repente parecem duas estrelas concêntricas) só me parece que estará aí a simbologia do pentágono, já importante no tempo dos primeiros artesãos maçons
    Mas nada sei, só agradeço a informação.

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