O meu tio da América

Devo ao meu tio da América um romance. Mas não tenho como escrever tal. Por isso dedico-lhe esta crónica.

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1812

Acabada a Segunda Guerra, na qual Portugal não participara diretamente, mas cujos efeitos se fizeram sentir, sobretudo entre os de sempre (os pobres, vulneráveis como agora se diz!) meu tio, o padrinho velho, fez-se à vida, por esse mundão fora. Embarcou, mais ou menos clandestino, como fogueiro num navio de mercadorias e emigrou para a América. 

Isto e muito mais me contou ele, quando nos anos 90 do século passado, decidiu regressar e vir terminar os seus dias numa pequena aldeia beirã, onde meio século antes deixara mulher e um filho. Meu padrinho velho, nome que mais tarde eu substituí orgulhosamente por O meu tio da América, cujas aventuras começam no porão dum navio, merecia um romance. Eu queria tê-lo escrito. Ainda o ouvi várias horas e guardei em cassetes aquela voz rouca contando e recontando a sua chegada a Ellis Island, o seu trabalho na construção de estradas, a sua empresa falida, a vida de emigrante, o dia a dia no Bronx North, na Concord Avenue, omitindo muito, que só vim a saber após a sua morte.

A voz rouca, o cabelo loiro ondulado e os olhos azuis transparentes como as águas mais límpidas do mundo aquático devem ter enlouquecido muitas mulheres. Meu pai, que entretanto também fora para a América, soube esconder bem o que era fácil de adivinhar. David, o meu tio da América, constituira uma família nos States, com uma porto-riquenha, criaram juntos uma filha e um filho, de cuja existência eu soube apenas há meia dúzia de anos.

Por cá teve uma mulher que deixou com um filho pequeno, o meu padrinho novo, e muitos anos depois, num rebate de consciência veio a Portugal, passou uns meses com a sua legítima e regressou ao Bronx deixando-a com mais um filho. Minha madrinha, que fazia o melhor folar da Páscoa do mundo, aprendeu a viver muito bem com a sua ausência. Apoiada por um irmão, que dedicou a vida a ser o irmão presente que lhe preservava a honra, tornou-se uma empresária, dona de um aviário, que lhe garantiu uma vida muito acima da média. Criou os dois filhos desafogadamente, deu-lhes estudos. Viveu como viúva, sem nunca mostrar rancor.

Quando aquele homem, que amou em silêncio, passou a vir regularmente a Portugal, aceitava-o como se nada soubesse da sua vida dupla. Evitava discussões. Ele podia ir e vir quando queria. E assim fazia. Saia para ir ao café conversar com amigos, chamava um táxi e seguia para o aeroporto de Lisboa. Ela habituou-se a isto.

Lá pelos States, meu tio da América ficou viúvo da porto-riquenha. Fez as malas, despediu se dos filhos e voltou de vez para Portugal, recomeçar uma vida interrompida meio século antes. Em breve, minha madrinha, que nunca tinha ido a um médico, sofreu um AVC, entrou em coma e partiu. Não pude ouvir a história como ela a vivera. As cassetes com a voz rouca do meu tio da América deterioraram-se. E inevitavelmente, um dia, aqueles olhos azuis fecharam-se para sempre. O Americano teve um funeral honroso. Na América, filhos e netos também choraram a sua morte.

Meu padrinho novo, ouvira do pai o mais importante da história. Soube que nos Estados Unidos tinha um irmão, uma irmã e sobrinhos. De forma enviesada também eram parte da sua história. Um dia, pegou no telefone ligou a um deles e sem mágoa nem rancor, tomou a decisão. Chegara o tempo de se conhecerem, partilharem as diferentes memórias que tinham daquele bonito homem, loiro, de olhos azuis transparentes, que lhes deixara uma herança genética impossível de esconder.

O pouco que sei desta história e o muito que gostava de saber mereceria não uma crónica mas um grande romance, que ficará por escrever.  “Tantas histórias, quantas perguntas!”

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