Ignoro se bater neste ‘ceguinho’ é uma batalha perdida, mas não posso deixar de o fazer.
Ouço Rádio (muito), vejo televisão (muito ocasionalmente) e não posso deixar de ficar chocada com o português da generalidade dos locutores e apresentadores.
Lembro-me, há uns anos, do escândalo que foi quando Jorge Coelho, então ministro da Administração Interna disse ‘hadem’. Foi alvo de chacota durante muito tempo. Hoje, todos dizem ‘hadem’ e coisas bem piores e já quase ninguém repara. Um locutor de um telejornal afirmou que ‘houveram muitas palmas’ e eu pensei: Jorge Coelho, estás perdoado!
O pior é quando se desculpam com o novo Acordo Ortográfico, que já não é tão novo assim e devia ter sido revogado há muito tempo.
Nas redes sociais vejo piadas ao português e, onde muitos põem um bonequinho a rir, eu ponho um bonequinho muito zangado. Porque fico mesmo zangada.
Recentemente, no The Voice ouvi ‘eu escolheria-te a ti’. Pelo amor da santa, não sabem conjugar os verbos, custa muito dizer escolher-te-ia?
Ainda no mesmo programa de entretenimento (não tenho culpa se já vi três ou quatro bocados do mesmo) um ‘mentor’ afirmou: ‘A Sara e o Tiago tiveram muito bem os dois’. Ai tiveram? O que é que tiveram? Um mentor que não sabe falar? Porque quando se confunde tiveram com estiveram, estamos conversados.
Ou a que diz: ‘Eu não queria era ter que escolher entre vocês, deixa-me de coração partido. A Francisca é uma caixinha de surpresas (…) eu gostava mesmo de continuar a trabalhar com vocês’. E a apresentadora que afirma ‘estamos com vocês’.
Não sabem o que é convosco? Eu explico: é um pronome pessoal que abrange os dois géneros.
Dir-me-ão que a Sul do País se fala assim, o que não acontece no Norte. Mas é um meio de comunicação e, também por isso, quem tem responsabilidades deve sempre ter um falar correcto.
No Público, um jornal que dizem ser de referência, num texto assinado por uma jornalista, lia-se em título: ‘habituaremo-nos’. Sei que despediram os revisores, mas não há um editor que saiba habituar-nos-emos»?
E o que dizer dos que dizem e escrevem ‘tem a haver com’? Alguém lhes ensine que é tem a ver e que o verbo haver aqui não tem cabimento.
E o que dizer do locutor do telejornal que afirmou ‘interviu na conversa’?
Como não entendo que (e já nem vou pela gramática, mas pela lógica) ainda não entenderam que não há ‘dias atrás’ e ‘para além’. Se há dias, claro que não é à frente! E além já significa isso mesmo…
Confesso ainda que tenho dificuldade em perdoar ao ‘mentor’ que tem sempre ‘fogo’ na ponta da língua. Mas isso é outra conversa, que é a mesma do ‘tipo’. São ‘bengalas’ que, por qualquer razão, as pessoas usam, esquecendo-se do real significado da palavra.
As palavras têm um significado e usá-las implica saber qual é. De outro modo, cada um atribui aquele que quer e, qualquer dia, ficamos numa Babel.
Dou aulas de português a estrangeiros e tenho o maior orgulho nos meus alunos que falam e escrevem português melhor do que muitos portugueses. E sim, ‘melhor do que’, já que os comparativos são outra das ignorâncias dos nossos brilhantes locutores e apresentadores.
Deixo-vos a foto que tirei à composição de um aluno. Este é chinês, mas escreve como já poucos portugueses.

O meu conselho aos ‘profissionais’ da Rádio e Televisão? Vão para a Escola Primária!
E, já agora, Feliz Ano Novo!




Margarida Maria, tente fazer ponto cruz, quem sabe ajuda acalmar-se (…) já agora, evite fazer comparações entre sul e norte, para uma professora não fica bem.
Se o seu comentário esgrimisse algum argumento, talvez fosse mais interessante. Assim como está soa a misoginia…
Excelente texto! Eu concordo com tudo, principalmente com a revogação do acordo ortográfico, que foi um “assassinato ortográfico”.