CRISTO EM CASA DE MARTA

UMA OBRA-PRIMA NO MUSEU NACIONAL GRÃO VASCO - I

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Museu Nacional Grão Vasco, Cristo em Casa de Marta e Maria, Gaspar Vaz, c. 1535

De uma demorada passagem pelo Museu Nacional Grão Vasco, essa emblemática casa de cultura de Viseu onde a pintura de Grão Vasco pontifica como “Tesouro Nacional”, uma pintura me cativa ainda, como sempre aconteceu, esse virtuoso quadro, de título “CRISTO EM CASA DE MARTA E MARIA”, que Gaspar Vaz, colaborador que foi de Grão Vasco, terá executado para a áulica Capela de Santa Marta, que D. Miguel da Silva mandara construir no Paço de Fontelo, onde Santa Marta figura como patrona.

Ficaremos, hoje, pelo sumário descritivo desta obra-prima, cuja materialidade é a de uma extensa tábua de castanho pintada a óleo onde se representa, num cenário intimista, quase familiar, uma refeição servida, ao findar de uma tarde, me parece, a ajuizar pela luz morna do janelão mainelado que descobre a paisagem.
Talvez tenha sido Lázaro, com o assentimento de suas irmãs que com ele coabitam nesse espaço de agradável mansão, a convidar o Mestre. que veio, nesse dia, trazendo apenas Pedro e João.
O serviço da refeição cumpre-se no amplo espaço de uma sala de aparato, espaço construído e decorado de acordo com padrões renascentistas que o Bispo D. Miguel da Silva trouxera da sua estada em Roma e cultivara.
Chamam-nos a atenção as poderosas colunas de jónica feição, que, sobre plintos volumosos, suportam um tecto apainelado, havendo a notar, como insólito, a cartela inscrita na face dos plintos, com a reprodução da heráldica do Bispo, sem dúvida, o encomendante: o “Leão entre silvas”.
Sobre um chão pavimentado com mosaicos de expressão hispano-árabe, levantou-se a mesa cerimonial da refeição, logo recoberta por uma rica tapeçaria oriental, cujo padrão testifica uma concreta origem. Sobre esta pousa uma branca toalha que, se pudéssemos tocar-lhe, distinguiríamos o tecido de linho relevado importado das oficinas da Flandres.
Sobre a mesa, algo despojada, ainda se encontram três pães. Nota-se, vazio, frente a João, um prato de estanho e uma pequena taça, mais longe. Pedro desdobrou já o individual guardanapo, que Cristo mantém ainda dobrado e nele repousa a faca de estanho para ulterior serventia.

Um pesado dossel, pano de honra, drap d´honneur, de nobre tecido de damasco talvez, desce do tecto, recobre a espaldas o espaço da mesa, descendo sobre esse espaço, frente ao qual se senta o nobre convidado.
À esquerda de quem olha, abre-se um aposento intimista onde, sobre as libertas prateleiras de um armário recobertas de linho pousam, resguardadas, peças de estanho, para serviço de aparato, que se acompanham de pequenos cântaros de fino barro vermelho, que pousam a deslado, talvez sobre um estrado.
Os convidados virão, sentar-se-ão nos lugares que o seu estatuto lhes consigna e a mesa depressa se tornará lugar de vivo conciliábulo, discurso breve que, todavia, expressa profundos conceitos de doutrina, a verdadeira mensagem do quadro.
Para ler num outro dia!…

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