VIDA E MORTE DE UMA REVISTA

A revista Arte Portugueza nasceu, em 1895, «sob protecção de Suas Majestades», assim como hoje, há muitas cenas a contar «com o alto patrocínio do Exmo. Senhor Presidente da República». Dá… prestígio!

2
1132

Sim, prestígio é capaz de dar. No caso da Arte Portugueza deu – e por isso a estamos a citar. Mas apenas teve, a coitada, escassos seis meses de vida! Na circular publicada no que poderia ter sido o nº 7, assinada pelo director, Enrique Casanova, ficou bem lavrado o lamento, a 30 de Setembro de 1895:

«Infelizmente, nem o governo nem a maioria do público mostraram compreender o valor e o alcance da nossa energética propaganda, que tendia toda, mais ou menos diretamente, à criação de uma arte portuguesa, e portuguesa de lei –  nova, sim, mas firmada na experiência do passado artístico da nação.  E, todavia, essa propaganda é tanto mais urgente, quanto é absurda e perigosa, sob o ponto de vista artístico e económico, a excessiva importação actual de produtos que se não harmonizam geralmente com a raça, o clima, os usos e as tradições do país».

Pois.

Não deixa de ser curioso este discurso – há 130 anos!… –  contra a invasão de produtos estrangeiros. Será que algo mudou?

Vem nessa linha a invectiva de Gabriel Pereira, por ocasião das comemorações do 7º centenário do nascimento de Santo António: «Os estabelecimentos aí estão cheios de objetos antonianos de origem estrangeira: franceses alemães e italianos. Há por aí, nas vidraças das lojas, centos de imagens com seus letreiros em espanhol, italiano, francês, inglês, alemão. A arte indígena manifesta-se pouco e mal. O nosso industrial foi descobrir pseudo-artistas, o artista não procurou o industrial e o público, naturalmente, vai ao mais gracioso, ao estrangeiro; e o centenário do santo português levará para terras estranhas, talvez para país de hereges, alguns milhares de libras».

Não se preocuparam com isso Suas Majestades protectoras. Enrique Casanova (fundador) e os amigos partiram do princípio que Suas Majestades acabariam por abrir os cordões à bolsa e o projecto, assim, facilmente seguiria avante. Esmeraram-se, pois, e, de Janeiro a Junho de 1895, lograram publicar mensalmente um número com boa apresentação gráfica e a ajuda de amigos de créditos já firmados. Sol de pouca dura foi.

Os seis números da revista Arte Portugueza publicados entre janeiro e junho de 1895, mais a circular que comunica o fecho da revista

2 COMENTÁRIOS

  1. Muito grata, José d’Encarnação.
    Quase tudo o que vale a pena tem vida curta, o mesmo será dizer, a mediocridade é tanta que consegue destronar o que é superior.
    O etnocentrismo é perigoso, mas neste caso de importações trata-se de proteger a produção nacional, uma medida tomada por todos os países que querem usar dentro e escoar equilibradamente, o que produzem em excesso e é de qualidade.
    Talvez seja uma opinião simplista, mas parece que o país não tem cura, não tem. Desrespeita o que é seu e importa monos e produtos alimentares de qualidade duvidosa, por exemplo hortícolas e frutos, que atravessando mares, ou cruzando os ares, chegam em condições de frescura que deixam a desejar. Enquanto isso “alimenta” a cultura do desperdício: deixa apodrecer produtos nacionais de qualidade ao tronco das árvores.
    Aqui falamos de uma escala reduzida, claro, mas considerável. Se uma geração de novos caçadores recolectores não estivesse disposta a salvá-los, lá ficavam. Felizmente conheço quem vá de cestinho à colheita gratuita do que parece não ter dono.
    Os limões são um bom exemplo: esplêndidos, esperam e desesperam na árvore, ou apodrecem no chão, enquanto as grandes superfícies vendem outros, importados e raquíticos, a um preço proibitivo.
    Quando, numa escala numérica de vulto, os produtores têm de vender o artigo a tuta-e-meia para as grandes superfícies aceitarem (tal como os pescadores aos intermediários depois da labuta no mar) já se converte num problema económico nacional que precisaria de atenção.
    Com a arte e com os “recursos” humanos, a mesma coisa: basta que venham de fora, rodeados de propaganda exagerada de respeitabilidade, para ofuscarem a arte (artesanato quando atribuído aos simples, dizia Galeano) e assim temos o panorama de hoje igual ao de ontem, com a agravante de terem de sair valores humanos de nível superior.
    Lamento por uma revista tão cheia de boas intenções e avançada para o tempo, já a colocar o dedo numa ferida que ainda não sarou.

  2. De: Regina Anacleto
    27 de outubro de 2025 12:29
    Li as suas “Duas Linhas” relacionadas com a revista “Arte Portugueza”. Falta-me um número para ter a coleção completa. Enrique Casanova veio para Portugal como emigrante político. Era um aguarelista com bastante mérito e tornou-se professor de pintura da Rainha Dona Amélia. Após a implantação da República, em 1910, regressou a Espanha com o mesmo estatuto, pois era monárquico convicto. Para o duque de Palmela pintou uma aguarela reproduzindo o palacete do titular, em Cascais, ainda sem o acrescento da capela, que foi, posteriormente, projetada por José Luís Monteiro.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui