Escrevi em tempos uma história infantil que dediquei a meu pai, um velho plantador de macieiras quando ainda não havia o fervor do plantio em pomares de larga escala. A história conta essa inicial presença de Eva e Adão na sua pátria natural – o Éden original onde o tempo parecia não ter medida ainda que houvesse a tarde, a noite e a manhã.
Viviam em harmonia com os bichos. Mas havia um que se mostrou enganador – a serpente. E foi esta que, um dia, subida ao tronco de uma macieira, falou a Eva e lhe perguntou porque não se aproveitava das maçãs daquele Outono. Eva referiu a proibição de Javé. Mas a serpente, habilidosa, enganou Eva. Prometeu-lhe o Céu como pertença.
E Eva não resistiu. Colheu uma maçã que achou deveras saborosa, parecia ter a doçura do mel, colheu outra e entregou-a a Adão que entretanto chegava junto dela. Adão aceitou a maçã. Mas a maçã soube-lhe a fel e não passou da garganta onde deixou sinal.
Javé apareceu ao fim da tarde para conversar como sempre acontecia. Mas Eva e Adão não apareceram. Deram conta que estavam nus. Javé chamou-os pelo nome e perguntou a Adão:
– Que fizeste? Comeste, porventura, do fruto da árvore que está no meio do Jardim?!
– Eva ofereceu-me e eu comi!… Respondeu Adão, envergonhado.
Daí a pouco Javé expulsava ambos do Jardim. Nada tinham para levar. Como se a terra se tivesse queimado e nada lhes restasse. Javé viu lágrimas nos olhos de Eva e, compadecido, deu a cada um uma veste de peles de cordeiro para esconder-lhes a nudez.
Adão e Eva vaguearam anos sem fim por longes terras que cavaram até elas darem pão. Armaram tendas que moradas já não tinham para se acoitar. Nasceram filhos. Criaram gados. Semearam trigo.
Um dia Eva e Adão quiseram voltar à terra onde nasceram. Era ali que eles queriam morrer. Os filhos já não quiseram ir. E eles armaram sua trouxa e partiram. Quando chegaram mal conheceram a sua pátria original. O fogo do Céu descera sobre ela. E as chuvas de muitos invernos arrastaram as areias para as correntes que ali havia, os quatro rios de antigamente, o Távora, o Vouga, o Douro e o Mondego.
Eva correu ao sítio da sua velha macieira. Era Outono. As maçãs estavam maduras. Eva encheu o avental. Comeu uma. E deu outra a Adão. As maçãs continuavam doces como o mel.
Adão limpou, com seu trabalho, os cursos de água. E os dois plantaram a terra de macieiras. Voltou gente. Voltou a sentir-se a Primavera. E o chão voltou a parecer um Paraíso.




