A Conferência das Nações Unidas sobre Financiamento para o Desenvolvimento, que decorreu em Sevilha no início de julho de 2025, culminou com a adoção de um documento conhecido como o “Compromisso de Sevilha”, subscrito por 192 dos 193 Estados-membros da ONU. A exceção foram os Estados Unidos, que se autoexcluiram do acordo, exigindo que o texto fosse submetido a votação formal e abandonando as negociações dias antes do início da conferência.
Com Trump, os EUA só estão interessados no business e no profit, negócio e lucro, sem o que não mexem uma palha excepto em situações que implicam a proteção dos interesses americanos, como será o caso do apoio ao Estado genocida de Israel. Não estão interessados em altruísmos, direitos humanos ou defesa dos mais fracos e ajuda aos mais pobres.
A COOPERAÇÃO E A INGERÊNCIA

O “Compromisso de Sevilha” propõe uma tentativa de redesenhar a cooperação internacional, com uma nova arquitetura financeira global para controlar o sobre-endividamento dos países mais pobres e promover o desenvolvimento sustentável. Entre as medidas concretas estão, por exemplo, a criação de cláusulas automáticas de suspensão de pagamento da dívida em caso de catástrofes naturais ou crises sociais graves, a promessa de triplicar o financiamento dos bancos multilaterais de desenvolvimento até 2035 ou a criação de uma agência africana de notação de risco que evite os enviesamentos das agências ocidentais que classificam os países mais endividados como “lixo”. Seja como for, mantêm-se os mecanismos financeiros típicos do capitalismo.
Estes “mecanismos” só terão impacto real se acompanhados de um novo equilíbrio nas relações internacionais. O financiamento estará, em muitos casos, sujeito a contrapartidas como reformas fiscais, combate à corrupção, proteção ambiental ou reforço da governação democrática. Isto levanta questões sobre a soberania efetiva dos Estados recipientes, que sempre foram contestadas e que, em muitos casos, impediram no passado um relacionamento saudável entre financiadores e financiados.
RÚSSIA E CHINA “CORREM POR FORA”
Neste contexto, a postura da Rússia oferece um contraponto revelador. Por exemplo, Moscovo já perdoou a totalidade da dívida bilateral da Guiné-Bissau, num gesto de cooperação que não foi acompanhado de exigências públicas, nem de contrapartidas visíveis. Foi uma abordagem silenciosa, bilateral, e desprovida de condicionalismos declarados. Agora, a Rússia participou na conferência de Sevilha, com uma intervenção em que criticou a ineficácia da ajuda condicionada por questões da política e apelou a formas mais pragmáticas de cooperação. Apesar de ter expressado reservas pontuais, subscreveu o “Compromisso de Sevilha”.
A China, embora mantenha uma política de cooperação bilateral intensa e moldada por interesses estratégicos – como o acesso a matérias-primas, rotas logísticas ou influência política – também assinou o documento final. A sua atuação em Sevilha parece alinhar-se com o espírito multilateral do acordo, sem abdicar do modelo que tem praticado nas últimas duas décadas: uma presença robusta em África, baseada em crédito para infraestruturas, construção civil, energia e transportes, sem nunca exigir a imposição de quaisquer modelos políticos.
Assim, enquanto em Sevilha se esboçou uma nova arquitetura financeira que tenta conciliar o imperativo do desenvolvimento com os interesses e condicionalismos dos financiadores, outros atores como a Rússia e a China oferecem vias alternativas menos intrusivas no discurso, mesmo se nem sempre desinteressadas na prática.
COOPERAÇÃO MAIS JUSTA, PEDIU SISSOCO
O que temos e o que continuaremos a ter, é uma cooperação internacional que serve de arma de arremesso e de propaganda política, numa disputa global de poder protagonizada pelos maiores potências mundiais que lutam entre si pelo controlo de matérias primas e rotas de comércio.
Como exemplo do fracasso que tem sido constatado ao longo de décadas de cooperação do Ocidente com África, o Presidente da Guiné-Bissau disse, no seu discurso, que “países como a Guiné-Bissau precisam de mobilizar recursos significativos” para concretizar os objetivos de desenvolvimento sustentável acordados pela comunidade internacional “muito além do possível atualmente com receitas internas ou ajuda externa”.

Esta foi a quarta conferência da ONU sobre financiamento ao desenvolvimento, mas “infelizmente os compromisso e objetivos assumidos” anteriormente, “não estão plenamente concretizados”, disse o Presidente africano. “É momento de rever a abordagem e encontrar mecanismos de financiamento mais realistas e adaptados às necessidades dos países em desenvolvimento”, afirmou Umáro Sissoco Embaló, como quem diz que África precisa de dinheiro mais barato.



