A SIC Notícias anunciou com algum entusiasmo que o podcast Memórias (espécie de programa de rádio na net), de Francisco Pinto Balsemão, atingiu 250 mil downloads. Poderá parecer uma informação banal, na verdade é. Só que a coisa é dita como se fosse um feito nacional. Não é.
Num mercado onde vários podcasts portugueses — do humor à política — ultrapassam milhões de downloads mensais, celebrar 250 mil downloads acumulados é, no mínimo, modesto. Mas este tem algo que os outros não têm: o nome do patrão.
O RANKING DOS PODCASTS
Os dados auditados pela Marktest (Pod_Scope) revelam que em janeiro, fevereiro e março de 2025, o podcast de maior audiência foi “Extremamente Desagradável” (Renascença, humor) com cerca de 2,7–2,8 milhões de downloads por mês. Depois temos “O Homem que Mordeu o Cão” (Rádio Comercial), com audiências a rondar 1,1–1,2 milhões de downloads, em terceiro lugar vem “Contas Poupança” (SIC Notícias/Impresa) com cerca de 600 000 downloads em janeiro e 483 000 em fevereiro.



No ranking da Marktest aparecem ainda produtos como “Alta Definição”, “Isto É Gozar Com Quem Trabalha”, “Programa Cujo Nome…”, “Eixo do Mal”, “Irritações”, entre outros, que estiveram consistentemente acima dos 250 mil downloads por mês, conforme o top 15 do ranking. O “Memórias” não consta.
Mas Francisco Pinto Balsemão não é apenas o autor do podcast. É o fundador da SIC, do Expresso, da Impresa. Foi primeiro-ministro, empresário, figura incontornável de uma elite que há décadas domina o espaço mediático português. Quando fala, fala a partir do centro do poder. E quando se ouve a si próprio num podcast com voz clonada por inteligência artificial, também é o poder que se ouve.
A questão, portanto, não é o número de downloads. Não há aqui notícia alguma. Trata-se de mera reverência ao patrão. Na minha opinião, é um ato falhado em termos de autopromoção do grupo de comunicação social, que não leva nenhum novo espetador a ver a SIC ou canais adjacentes. Autopromoções disfarçadas de notícia também não são novidade. É uma prática mais velha que o próprio Balsemão, mas é sempre útil sinalizá-la.
Se fosse outro o autor, com os mesmos números, a “notícia” não passaria sequer ao nível de nota de rodapé. Mas sendo o patrão é parangona.



