OS MORTOS DO DIA

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2010

Portugal chora a morte de dois jovens irmãos: Diogo J. e André Silva. O primeiro era um futebolista conhecido, internacional pela seleção portuguesa, estrela do Liverpool. O segundo, também jogador, não chegou aos mesmos palcos nem à ribalta mediática do irmão. Ambos morreram num trágico acidente de viação, num carro de luxo, em circunstâncias ainda por apurar. As imagens do Lamborghini destroçado deixam poucas dúvidas: não iam devagar.

O Lamborghini ficou desfeito devido à violência do acidente

A tragédia gerou comoção imediata. As televisões pararam. As rádios interromperam programação. Nas redes sociais multiplicaram-se homenagens, recordações, lágrimas públicas. Durante todo o dia, em rodopio constante, foram repetidas as mesmas imagens, os mesmos dados, as mesmas frases de pesar. A dor nacional instalou-se obrigatoriamente.

Neste mesmo dia 3 de julho, mais de uma centena de pessoas foram mortas em Gaza. As imagens que chegam de Gaza mostram morgues onde já não há mais espaço para acolher os corpos. Entre as vítimas estão crianças, mulheres, famílias inteiras. Vítimas de bombardeamentos israelitas, em mais um capítulo diário da agressão contínua contra um povo exausto, cercado, espezinhado.

Gaza, 3 de julho de 2025

Essas mortes não mereceram tempo de antena. Não foram manchete. Não geraram especial indignação, nem silêncio respeitoso, lamentos públicos ou recriminações políticas. Simplesmente não existiram, porque não passaram nas televisões.

Gaza, 3 de julho de 2025

Não escrevo para diminuir o drama da perda dos dois jovens futebolistas. Nenhuma morte é irrelevante. A dor das suas famílias deve ser respeitada, e compreendo que o país sinta também essa dor. Mas não posso, não devemos, aceitar a empatia mediada pela fama ou pela geografia. Como se a vida de uma criança palestiniana valesse menos do que a de um desportista português.

A velocidade do Lamborghini pode ter contribuído para a tragédia. A velocidade dos mísseis que rasgam o céu de Gaza continua impune.

As imagens que chegam de Gaza mostram morgues onde já não há mais espaço para acolher os corpos, 3 de julho de 2025

1 COMENTÁRIO

  1. Nenhuma destas mortes merece silenciamento por razões diferentes.
    Paz à alma de todos, mas os parentes de cada um não podem ter paz com o tamanho da dor.
    Há dias vi a imagem de um violinista judeu a ser obrigado pelos nazis a tocar à frente dos companheiros, que eram levados a um forno crematório.
    Todos com as costelas à vista, como esqueletos em movimento.
    O violinista, com a dor estampada no rosto, conseguiu sobreviver, mas nunca mais conseguiu tocar.
    Hoje assistimos à humilhação de um povo que corre de um lado para o outro acossado por armas que sobrevoam o reduzido espaço em que se concentra. Vemos a dor de pais e mães com as crianças nos braços.
    O que esperam os senhores da guerra, um mundo mais complacente?
    Têm o poder de acabar com a dor. Façam-no, para bem da Humanidade.

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