Portugal está a ser envergonhado por um fenómeno político grotesco e perigoso: André Ventura. O homem que se serve da política para construir um palanque de ódio, preconceito e exclusão racial representa hoje um dos maiores riscos ao prestígio internacional de Portugal e à coesão da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
O ataque recente a Eva Cruzeiro (Eva Rap Diva), deputada negra, artista, mulher periférica, foi mais do que um ato de misoginia ou racismo isolado. Foi um sinal claro de que o projeto político do CHEGA é incompatível com a Constituição da República, com os valores de Abril e com o espírito de fraternidade que une os povos da Lusofonia.
Ventura tenta impor a Portugal um modelo de sociedade autoritário, monocromático e fechado ao mundo. O problema não é só a cor da pele dos seus alvos — é o ódio à diversidade, à liberdade, à cidadania plena para todos. E se em Portugal alguns se deixam seduzir pelo seu populismo barato, nos países da CPLP — onde milhões de cidadãos acompanham a política portuguesa com orgulho e esperança — o seu discurso não passa de uma afronta racista e xenófoba à história partilhada.
E se amanhã surgissem “Venturas negros” em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau ou Cabo Verde a insultar portugueses brancos, a dizer que “o Parlamento não é a casa deles”, a desqualificá-los por serem europeus, suburbanos ou comerciantes? Seriam imediatamente acusados de racistas e extremistas, e bem. O que Ventura está a fazer é exatamente isso — mas ao contrário.
É altura de dizermos, com clareza e sem tibiezas: Portugal não é Ventura. A CPLP não pode tolerar este tipo de discurso. O que está em jogo não é apenas o respeito devido a uma deputada ou a uma mulher negra. É o futuro de um espaço lusófono construído com base no diálogo, na inclusão e na dignidade recíproca.
Portugal tem um lugar único no mundo lusófono. E é precisamente por isso que o crescimento do discurso racista e colonialista de Ventura deve ser combatido com firmeza. Porque põe em causa tudo o que Portugal representa aos olhos de milhões de africanos, brasileiros, timorenses e cidadãos do mundo que acreditam numa Lusofonia feita de respeito, liberdade e cooperação.
Eva Cruzeiro respondeu à altura. Não por ela apenas, mas por todos nós. E mostrou que, ao contrário do que pensa Ventura, o Parlamento é casa de quem trabalha, de quem sonha, de quem representa Portugal plural. Casa dos que sabem o que custa subir da lama para a dignidade, não dos que fingem defender o povo enquanto o envenenam com raiva.
Portugal não pode voltar para trás. E não voltará. Porque há mais pessoas como Eva do que como Ventura. E porque a Lusofonia — essa imensa família que transcende o populismo — sabe distinguir civilização de barbárie.



