A recente inscrição das Ilhas João Vieira e Poilão, Orango e Urok, do Arquipélago dos Bijagós, Guiné-Bissau, na lista do Património Mundial da UNESCO deveria ser motivo de celebração e de renovado compromisso de Bissau com a proteção ambiental e cultural. No entanto, o que se impõe hoje é uma profunda preocupação. O arquipélago está a ser alvo de uma verdadeira invasão de pescadores, em particular senegaleses, que, à sombra de um acordo de pesca celebrado entre os Governos da Guiné-Bissau e do Senegal, exploram desenfreadamente os recursos marinhos das ilhas sagradas e frágeis do arquipélago.
Esta presença crescente de embarcações estrangeiras, muitas vezes operando com redes de malha apertada e métodos de pesca destrutivos, tem provocado a indignação de pescadores locais e de praticantes da pesca desportiva – uma das maiores atrações turísticas da região. Estas práticas ameaçam diretamente os ecossistemas marinhos, colocam em risco espécies protegidas e reduzem drasticamente a capacidade de subsistência das comunidades bijagós, que, durante séculos, foram as legítimas guardiãs dessa biodiversidade única.

Importa lembrar que a Zona Económica Exclusiva (ZEE) da Guiné-Bissau é uma das mais ricas em recursos haliêuticos da costa atlântica africana, logo a seguir à da Mauritânia. Tal riqueza natural é devida, em grande parte, ao papel crucial que o Arquipélago dos Bijagós desempenha como área de desova, refúgio e alimentação de diversas espécies marinhas. O acordo de pesca em questão, solicitado pelo Senegal após este decretar a interdição das suas próprias águas – já esgotadas – parece ter sido assinado sem a devida ponderação das consequências ambientais, sociais e culturais para a Guiné-Bissau.
A questão que se impõe é simples, mas grave: como pode o Estado guineense conciliar o compromisso internacional com a UNESCO – que implica proteger, conservar e valorizar este património – com a permissividade e ausência de fiscalização que hoje permite a pesca ilegal e predatória em pleno coração das ilhas reconhecidas como património da Humanidade?
Mais do que uma incoerência técnica ou política, estamos perante uma violação do dever de proteger esses recursos naturais e os direitos das comunidades locais. O silêncio institucional e a passividade das autoridades competentes só agravam o problema, colocando em risco não apenas os ecossistemas marinhos e a sobrevivência dos povos bijagós, mas também a reputação internacional da Guiné-Bissau como nação responsável e comprometida com a sustentabilidade.
É urgente e inadiável que o Governo reavalie o conteúdo e os impactos do acordo de pesca com o Senegal. É necessário suspender, ou pelo menos restringir, a presença de embarcações estrangeiras nas áreas sensíveis do arquipélago, reforçar a fiscalização ambiental e marítima, e devolver às comunidades locais o protagonismo na gestão dos seus territórios e recursos.
A inscrição dos Bijagós na lista da UNESCO não deve ser uma medalha para exibir. Deve ser uma responsabilidade para honrar.




Tudo de mau acontece ao país sonhado por Amílcar Cabral…🥲
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Ao menos esta história positiva, narrada no filme “Lindo”, realizado por Margarida Gramaxo.
Durante mais de 20 anos Lindo caçou tartarugas marinhas na Ilha do Príncipe. Depois de um encontro com uma tartaruga inesperadamente dócil, decidiu mudar de vida para começar a proteger o animal contra outros predadores. Agora mergulha no seu passado para procurar as pistas que lançam o debate sobre o futuro da ilha e que passam por uma reflexão sobre o difícil equilíbrio entre o Humano e a Natureza.
https://www.youtube.com/watch?v=1hgsk9dtkHw