De há muito o povo chama “quelha” a uma ruazinha estreita, termo que os dicionários assinalam também, Não há aldeia, na Beira, quase pode dizer-se, que não tenha uma ”quelha”, ou “quelho”, que às vezes assim se dizia para uma rua ainda mais estreita.
Em Viseu, cidade, são afamadas a Quelha da Horta e a Quelha de Gaspar Vaz, pintor que foi companheiro de Grão Vasco na cidade, onde ambos habitaram na primeira metade do século XVI.
A Quelha da Horta é, provavelmente, uma das ruazinhas mais estreitas de Viseu. A boqueira dela abre-se ali, na “mesteiral e formiguenta Rua do Arco”, como Aquilino Ribeiro lhe chamou, na Geografia Sentimental, ao N.º 100; e fechou-se, cinquenta passos andados, quando se fechou o caminho que corria a deslado da cerca do velho Solar dos Albuquerques do Arco, que desembocava junto à Porta dos Cavaleiros.


Aquilino Ribeiro que, no Verão de 1900, viera para Viseu para terminar o Curso dos Preparatórios com o seu exame de Filosofia, que haveria de fazer graças às explicações de António Alves Martins, sobrinho do grande Bispo Alves Martins, hospedou-se ali, na casa que ainda lá demora, fazendo esquina com a Rua do Arco.
A Senhora Joaquina, dona ou locatária não sabemos, casada com o Senhor José, ao tempo lampianista, mantinha, no rés-do-chão, lojinha de comes-e-bebes e, no piso superior, em três ou quatro quartos, pensão de estudantes a quem servia, por passadio, “sardinha frita, bacalhau com batatas, refogado de carneiro, ao almoço, ao jantar, à ceia”, que disso guardou memória o futuro Mestre e escritor e nos contou nessa memória póstuma, que é o seu livro Um Escritor Confessa-se.


Aquilino fará hospedar-se ali uma das figuras do seu livro O Homem da Nave, meio crónica de costumes, meio romance, o velho fidalgo do Carregal, Inácio de Almeida e Vasconcelos, que viajava para Lisboa e ali aguardou a diligência que partia na madrugada seguinte.
Quanto a ele próprio, pouco tempo ali se manteve, já que o seu feitio travesso não tolerava as estouvadas brincadeiras de um dos filhos da Senhora Joaquina, seminarista, parece, e seu ai-Jesus!… E, num dia qualquer em que os dois rapazes se tomam de razões, o estudantinho de sangue quente retrucou com um par de estalos, conta ele, e teve de largar em busca de nova pensão, que encontra na Rua do Gonçalinho, saindo da locanda, “muito teso debaixo do olhar de toda a Rua do Arco”. Que isso nos conta nesse livro de memórias, Um Escritor Confessa-se. A Senhora Joaquina não lhe perdoara.
Do outro lado da viela, abria porta para a Rua do Arco a abonada loja, onde Arnaldo Malho veio a abrir, mais tarde, a sua especiosa oficina, onde lavrou, com a sua mágica arte, ferros de fantasia, ferros de singular lavor, que fizeram dele um dos maiores mestres da arte de forjar.
E quis a sorte que Aquilino Ribeiro se tivesse feito seu amigo, “amigo do peito” o considerava Arnaldo Malho, que ajudou a abrir-lhe as portas do presídio, ao Fontelo, que lia de ponta a ponta os livros que o escritor lhe ofertava, num deles colhendo a merecida dedicatória que o elevava à suprema categoria de “Poeta do Ferro”.
Memórias da cidade, em cada canto, para rever!… Este jeito ameno de habitar a cidade!…



