Restam, agora, duas questões a resolver:
1ª) Por que razão se teria optado pela escrita especular?
2ª) Que poderão significar os elementos iconográficos ali esculpidos?
A escrita especular
Dá-se o nome de escrita especular a esta forma de gravar um letreiro como se ele estivesse refletido num espelho (speculum, em latim). Sabia-se que Leonardo da Vinci usava este estratagema em alguns dos seus desenhos para guardar algum secretismo.

Também é célebre um desenho do livro de Lewis Carroll que mostra Alice a ver-se ao espelho.

No âmbito dos monumentos epigráficos romanos, Juan Manuel Abascal deu a conhecer uma estela achada em Coraín (Cangas de Ónis, nas Astúrias) em que o canteiro foi tomando posições diversas enquanto gravava e, por isso, algumas linhas saíram como que espelhadas.

Não tive, porém, conhecimento de outro testemunho comparável a este de Freixedas. E continuará misteriosa a razão por que texto tão inofensivo foi gravado assim. Simples brincadeira?
Nunca se pensara, todavia, nesta hipótese de interpretação do que se lia no lintel, pelo que todas as versões deixaram agora de ter qualquer valor, a não ser o documental, por se basear a leitura «às avessas».
Os elementos iconográficos
Assim, importará, por isso, referir que, por exemplo, na monografia Inventário Histórico e Cultural de Freixedas, datada de 1997, da autoria do Padre João Alves Correia, se escreve, na p. 128, a propósito dessa, que considera «uma das mais antigas» casas da localidade, que «nela se encontra uma pedra lavrada de grande valor artístico com letras cavadas e símbolos em relevo. Não tem qualquer data».
Quis, portanto, o Padre Alves Correia solicitar o parecer do seu amigo Padre Henrique da Silva Louro, por sinal também meu amigo e denodado companheiro no estudo destas antiguidades, nomeadamente epigráficas, conceituado membro da Associação dos Arqueólogos Portugueses.

Baseou-se o Pe. Louro no que lhe era dado ver e a sua interpretação dos «símbolos» foi a seguinte:
«O 1º, por cima do nome representa uma casa agrícola;
O 2º é um machado com cabo levemente arcado.
O 3º da parte direita é uma forquilha de pau para limpar os cereais, quando se malham.
O 4º abaixo do anterior é uma corda ao lado do quanho [?] ou palha miúda.
O 5º a ligar a corda tem a forma de coração. E talvez uma relha do arado».
Acrescenta o Padre Louro:
«As letras decifram-se assim: “Manuel d(e) S. M. Correia”».
Por seu turno, Alves Correia informa de seguida:
«Mas também há quem interprete estes símbolos como pertencendo esta casa inicialmente a algum mareante abastado que quis assinalar na sua habitação e para a posteridade os motivos náuticos do seu ofício.

Recordar-se-á que o enigma da frase escrita se resolveu invertendo a imagem, tal como relatámos em artigo anterior. Nesse artigo, se havia sugerido:
«O desenho central assemelha-se a uma embarcação estilizada, de casco curvo e mastro central em jeito de árvore. Do convés parece levantar-se um réptil de ameaçadora cabeça, voltada para trás. Do lado esquerdo, uma flecha pode representar a amarra. Há, oblíquo, um machado de longo cabo e, à direita, o que pode ser a representação de um peixe».
A minha colega Rosa Marreiros adiantou, depois de se interrogar se, na inscrição, em vez de «se fez», o ‘se’ não poderia ocultar o nome do proprietário:
«Quanto à representação, não poderá ser da Terra? De um lado, o mar, representado por um peixe e do outro, a terra, representada por um campo lavrado, um arado e uma árvore, atrás do campo, representativa das florestas? A separar as duas partes, parece estar uma enxada ou machado».
E acrescentou que o céu não foi representado, talvez devido à falta de espaço.
Por seu turno, José Azevedo e Silva – a ambos os colegas agradeço a atenção – viu no lintel «um navio, um machado e um grande peixe, que foram gravados antes da inscrição (veja-se o desenho da letra “d”)». «Não há informação histórica de uma personagem [de Freixedas] ligada à saga dos Descobrimentos Portugueses», adiantou, «mas a tradição oral guarda a participação de muitos pinhelenses embarcados nas caravelas, nas naus e nos galeões».
Era, de facto, essa segunda metade do século XVI um período, ainda, de grande euforia pelas proezas de além-mar. Ter aqui delas, nesses interiores confins beirões, um eco constituiria, na verdade, ainda que desta forma rústica, algo de verdadeiramente singular, sobretudo por o seu artífice ter optado, crê-se bem que voluntariamente pelo sugestivo e bem fora de comum uso da escrita especular.
Agora decifrado o mistério da frase e por decifrar com segurança o significado dos elementos iconográficos, o certo é que o monumento representa para os Freixedenses renovado motivo de orgulho e a obrigatoriedade da sua necessária preservação como documento histórico de inegável valor.


Cumpre-me agradecer, de coração, a Dina Almeida, da Junta de Freguesia de Freixedas, e a Maria Crespo, do Arquivo Municipal de Pinhel, a pronta e preciosa colaboração prestada.





De: maria helena coelho
11 de julho de 2025 11:53
Isto da interpretação do símbolos é um pouco “roda livre”!…
Ajudaria talvez conhecer os homens nesta época – haverá róis de baptismo, matrimónio ou outros? E aí procurar alguém que, vivendo da terra, terá sulcado os mares.