Alice Martins Correia, nasceu em Paderne, Loulé, em 1933. Cresceu numa família de seis filhos – duas raparigas e quatro rapazes. Ela era a filha mais nova, a penúltima dos seis. Aos 16 -17 anos, o pai obrigou-a a casar com um homem de 38 anos, de que ele gostava muito. Viveu com ele até aos 21 anos e, atingida a maioridade, o divórcio aconteceu, depois de o pai ter pedido ao marido para lho dar. “É muito triste dormir com uma pessoa que não se gosta”, repetia Alice, de vez em quando, com um ar desolador.
Apesar de analfabeta, como a maioria das mulheres do seu tempo, aos 25 anos ousou ir sozinha para França, ao encontro de uma amiga, que a ajudou a arranjar trabalho. Os filhos, deixou-os com os pais que os criaram.
Em França foi feliz. “Vivi com um homem francês 7 – 8 anos, ele era muito doce, tinha uma moral muito doce, muito diferente dos homens portugueses, tratava-me como uma rainha”, dizia Alice com um ar meigo e de saudade.
Alice decidiu voltar para Portugal, aos 50 anos, a pedido dos filhos e da mãe. “Custou-me muito vir de França, tive de deixar o francês, ele não queria vir, ele era lá carpinteiro. Ainda veio trabalhar comigo na apanha da alfarroba durante dois anos, no Verão, mas não se adaptou”.
França “deu-me uma vida boa, de muito trabalho, mas ganhei bom dinheiro, comprei terras, que dão muita alfarroba, figos e amêndoa, e casas no Algarve, e uma boa reforma”.
Alice Correia, depois de “uma vida amarga e injusta”, lamenta com ar sofrido, ainda que relativize – “não foram criados por mim” – que os filhos não lhe dêem o carinho que gostaria de ter.
Estes são alguns dos versos que Alice Correia me foi dizendo, quando a memória não a atraiçoava. E quando tal lhe acontecia, lamentava-se: “Eu tenho um problema, falta-me a memória. Mas vou estudar e esgravatar para amanhã poder contar”. E assim era.
Gozei pouco a mocidade
Casei bastante novinha
Nunca tive liberdade
Mas que pouca sorte a minha
O meu pai me obrigou
Depressa me quis casar
Minha vida atrapalhou
Que não a pude salvar
Mas ele não me agradava
Com o seu modo de viver
Por tudo e nada pegava
Era só pra me ofender
Eu já estava conformada
Com a minha pouca sorte
Veio de lá uma rajada
E levou-me prò vento norte
Então a coisa mudou
Fiz a minha despedida
O casamento acabou
Vai governar tua vida
Com o meu marido vivia
E tinha uma pequena esperança
Mas ele nada fazia
Resolvi e fui para França
Vivo no jardim do mundo
Com três ramos matizes
Com vinte e cinco flores
Com trinta e cinco raízes
São Brás de Alportel
Não é vila nem cidade
É uma capela em ouro
Onde brilha a mocidade
Já não tenho pai nem mãe
Nem nesta terra parentes
Sou filha das ervas verdes
E neta das águas correntes




De: Teresa Gouveia
31 de julho de 2025 23:19
Tb gostei muito da poetisa analfabeta
Que vida…
Lindo! Puderam as mulheres como esta escrever coisas assim!
Teresa