O primeiro-ministro português afirmou que o Conselho Europeu está “fortemente preocupado” com as violações dos direitos humanos por parte de Israel em Gaza. Mas depois de quase dois anos de massacre, tudo o que temos é conversa. Decisões concretas? Zero.
A União Europeia foi célere a sancionar a Rússia pela invasão da Ucrânia, em nome do direito internacional e dos valores europeus. Já com Israel, mesmo perante a destruição sistemática de Gaza, a ocupação contínua da Cisjordânia e a humilhação diária do povo palestiniano, a reação é morna, adiada, coberta de ambiguidade.
Entre Rússia e Israel, francamente, a diferença joga a favor da Rússia. A Rússia trava uma guerra com outro Estado soberano, num confronto militar direto e sangrento, mas pelo menos reconhece o estatuto do adversário. Já Israel faz tiro ao alvo contra um povo ocupado, sem exército, sem defesas, cercado por terra, mar e ar. Bombardeia hospitais, escolas, campos de refugiados — e ainda tem o descaramento de se apresentar como vítima.
O que impede a UE de agir? Interesses. Tecnológicos, militares, energéticos e ideológicos. Israel fornece armamento “testado” em Gaza, em civis palestinianos, coopera em segurança e ciberdefesa, promete gás natural (uma parte a ser extraído do offshore de Gaza) e é tratado como bastião do Ocidente no Médio Oriente. Os povos europeus não querem este tipo de parcerias com um Estado genocida. Manifestações de protesto constantes nas principais cidades europeias provam-no. Não queremos ser coniventes com criminosos de guerra. Por isso, não aceitamos o compadrio europeu com Israel.
Os propalados “valores” da Europa não são para aplicar só quando convém a lideranças comprometidas com interesses alheios, cultivados em Bruxelas e noutras capitais europeias, onde atuam grupos de pressão bem organizados em defesa de Israel, tanto no plano económico como diplomático, muitas vezes com forte ligação aos EUA. Tudo isto cheira a lobby e a corrupção.



