A visão do escritor mais directamente empenhado em mostrar – como fizera em A Cidade e as Serras – o contraste entre a vida tranquila e descomprometida da província, no livro A Capital substanciada em Oliveira de Azeméis – e as deambulações em Lisboa, pelos meandros literários e jornalísticos.
Ao protagonista, que tem a esperança de vir a ser literato de renome, acalentada desde as tertúlias universitárias de Coimbra, a choruda herança recebida acha ele que lhe vai abrir essas almejadas portas da capital. Engana-se – porque só encontra quem dele se aproveite para também viver à tripa forra. E é na descrição dessa vida fátua e falsa que mui ironicamente Eça de Queiroz se compraz.
Os encontros e jantares opíparos; as idas à ópera no S. Carlos, ponto de encontro e feira de vaidades dos nobres decadentes e da burguesia vaidosa; os jornalistas d’O Século, que se deixam comprar e fazem jeitinhos; a clientela do Martinho; o embrião revolucionário da pequena burguesia republicana; as espanholas (la buena dicha)…
Historiador que almeje agarrar aí sintomas da vida real dificuldade terá em destrinçar o concreto vivido do enredo ficcionado. Aliás, pouco se fica a saber, por exemplo, da fisionomia física da cidade. Eça descreve sucintamente uma procissão, os bailes de máscaras. As deslocações são em landaus, carroças, tipoias. Fumam-se charutos. O francês é a língua de referência, quer no âmbito literário (são os autores franceses os citados), quer no dia-a-dia: a toilette chique; Artur pode aparecer em robe-de-chambre; Meirinho despede-se com um au revoir, cher!; oferece-se um cálice de anisete… Nada de inglês!
Como nada há de hábitos estivais de «ir a banhos». Isso demorará a vir e será apanágio doutra camada social O «fora-de-portas» é Algés e Pedrouços (não admirará que o primeiro troço de caminho-de-ferro venha a ser, mais tarde, do Cais-do-Sodré a Pedrouços). E aí os saraus não incluem o fado no repertório…
Inteiramente esgotado o pecúlio herdado, desiludido, Arturzinho regressará a Oliveira de Azeméis e fica a saber, à saída do cemitério, que era para os coelhos o molho de erva «muito tenra» que o Tio Jacinto colhera ao pé da sepultura da tia Sabina. E assim termina o romance.


No seu livro Os Ricos (6ª edição, 2018), Maria Filomena Mónica refere-se ao hábito das recepções, costume que Eça de Queiroz, como se viu, não podia deixar de descrever com algum pormenor, porque lhe permitia vincar tiques de fácil efeito irónico. Escreve a historiadora acerca da «vida social da aristocracia»:
«Algumas dessas pessoas recebiam em casa com dias fixos na semana ou no mês, era um hábito. Sabia-se que determinadas pessoas recebiam às segundas-feiras, às terças outras e por aí adiante. O calendário das reuniões aparecia muitas vezes no jornal: até a alteração da sua data era anunciada. Em 11 de Novembro de 1884, por exemplo, o jornal corrigia a informação anteriormente avançada, de que as soirées em casa dos duques de Palmela seriam às quartas-feiras e não aos sábados» (p. 28).
Enfim, Eça de Queiroz (a Literatura) e a História de mãos dadas para nos contarem como foi.



