Vivemos tempos sombrios para o pensamento livre. A cada dia que passa, parece mais difícil acreditar na integridade dos regimes e dos políticos que se dizem democráticos. Aquilo que deveria ser um espaço de pluralismo, de debate aberto e de respeito pelos factos tornou-se, demasiadas vezes, um palco para a manipulação, o silenciamento e a distorção. Sinto-me desmoralizado. E não serei o único.
As democracias contemporâneas, sobretudo na Europa, continuam a propagandear-se como bastiões da liberdade e da verdade. Mas na prática, recorrem à censura seletiva, à ocultação de antecedentes históricos e à adoção de narrativas redutoras, que servem interesses geopolíticos e não a consciência pública. Quem pensa de outra forma, quem se atreve a fazer perguntas incómodas, é muitas vezes rotulado de cúmplice do inimigo, censurado.
A GUERRA NA UCRÂNIA
A guerra na Ucrânia foi exemplo disso. Desde o início da invasão russa, os canais de informação russos foram banidos na Europa com o argumento de que propagavam propaganda. Ao mesmo tempo, os grandes meios europeus nunca se dispuseram a escutar, quanto mais a explicar, os antecedentes que levaram ao conflito: o golpe de Estado de 2014, a guerra esquecida no Donbass, a expansão da NATO, a complexidade de uma região fraturada. Talvez nenhuma dessas realidades possa justificar a invasão, mas compreender não é justificar, é um imperativo de honestidade intelectual.
A GUERRA NA PALESTINA
Mais chocante ainda tem sido o comportamento do Ocidente face ao genocídio em curso na Faixa de Gaza. Quando o Hamas atacou Israel em outubro de 2023, a resposta foi imediata: apoio incondicional a Israel, em nome do seu “direito à defesa”. Não houve espaço para recordar os 70 anos de ocupação, a colonização, as expulsões e a repressão do povo palestiniano. A empatia parecia reservada a um só lado. Hoje, com dezenas de milhares de civis mortos, hospitais destruídos, campos de refugiados bombardeados, o mundo hesita ou recusa-se a usar a palavra genocídio. E entre os que se calam está o governo português.
Chamaram Israel “a única democracia do Médio Oriente”. Mas um Estado que oprime milhões de pessoas, que nega direitos fundamentais com base na etnia ou na religião, que destrói vidas impunemente, não pode ser chamado democrático. A democracia não é uma questão de eleições apenas. Democracia é justiça, é respeito pela dignidade de todos os seres humanos.
Tudo isto corrói a confiança. Mas recusar o cinismo total é também um ato de resistência. Continuar a informar-nos, a pensar criticamente, a partilhar o que vemos e sentimos, mesmo que seja contra a corrente, é talvez das poucas formas de salvar a ideia de democracia da sua própria decadência.
Sinto que não estou sozinho neste desencanto. E é por isso que escrevo.



