– Então, lá vamos de abalada até Lisboa, hein?! Bom fim-de-semana!
Escusado será explicar ao meu amigo que não, não é Lisboa, é São Domingos de Rana – que, para um albicastrense, isso chama-se «A Grande Lisboa», sem distinção de terriolas, freguesias, concelhos limítrofes. Lisboa, um todo açambarcador. Há uma cidade vista de fora, como quem espreita da janela do avião, e a cidade vista de dentro, onde a diversidade impera, as rivalidades até, nessa impenitente vontade de querermos a nossa identidade, o que nos distingue, o nosso clube, somos Benfica ou Sporting, pronto!
Para o romancista, habitualmente, o importante são as personagens que criou, o meio social e político em que se movimentam. Até a vida das instituições a que pertencem só interessa se daí puderem vir quezílias, desencontros político-partidários, que, queira-se ou não, é isso da política, pelos dividendos que gera, que mais suscita entusiasmo, amores e desamores, aquele olhar esquivo, aquele gesto comprometedor.
Digo-te «Vou até Londres!» e tu replicas, de imediato, «Diverte-te!», quando sabes não serem razão da ida os negócios ou problemas de saúde, mas simples passeio turístico. Mesmo, porém, esse dito ‘passeio turístico’ se pode revestir de cambiantes e o primeiro: «Para que Londres é que tu vais?». Desta vez, por exemplo, passaste a tua semana no seio familiar, em Penge. Em Penge? Onde é Penge? Então, tu não ias para Londres? O que é isso de Penge? E eu podia ter dito Anerley ou Croydon – e era Londres na mesma. Tal e qual como, para o albicastrense, São Domingos de Rana é Lisboa e estamos conversados.
Ora Penge, circunscrição administrativa de Londres, é Londres e não é Londres. Não é a Londres dos grandes teatros, do British Museum, da London Tower, do passeio de barco no Tamisa. É uma Londres do operariado, das pequenas lojas e duas ou três grandes superfícies, como São Domingos de Rana… Pacata, de casas pequenas em banda, chegadinhas umas as outras, todas ao longo da rua, obedecendo ao mesmo estilo, rés-do-chão, 1º andar, sótão ou água-furtada, que o arquitecto não esteve para se maçar. O teu cão, à janela, ladra para o gato da vizinha, para o corvo que ousa pousar na vedação e, à noite, para a raposinha que ousa ir espreitar o caixote do lixo; e até ladra para o avião que se apronta a aterrar em Gatwick, porque avião, para ele, não passa de uma ave bem grande capaz de também lhe usurpar um espaço que é o dele…


Estando em Penge ou Anerly, servido por duas ou três estações de caminhos-de- ferro para diferentes destinos e por diversas linhas de autocarros, poderás, sim, pensar no passeio pelo Tamisa, mas não vais esquecer que dele te separa uma hora de viagem, mais coisa menos coisa. Ficar-te-á mais perto ir até ao parque do Crystal Palace admirar réplicas de dinossáurios, fotografar os atrevidos e irrequietos esquilos ou mesmo sentares-te, religiosamente, na «Bromley Millenium Rock», exemplar de gneisse que foi recolhido junto à aldeia de pescadores de Lochinver, no noroeste da Escócia: com a provecta idade de dois biliões de anos, é anterior à época dos dinossáurios e pode considerar-se a mais antiga obra de arte pública patente na cidade…


Ao perspetivar-se, portanto, a leitura de A Capital, romance póstumo de Eça de Queiroz, não pode encarar-se a ideia de o escritor nos traçar uma panorâmica mais ou menos global da sociedade lisboeta e, muito menos, da sua fisionomia arquitetónica, seus monumentos ou seu ambiente geral.
Não. Como adverte o anónimo autor da Nota Introdutória da edição de que me servi, «Desta obra não sai a sociedade lisboeta nada favorecida. E, sentindo que poderiam nela facilmente reconhecer-se figuras da época o autor apressa-se a afirmar: «… Deus queira que ninguém tenha a tolice de se julgar ferido…».
E continua: «De qualquer modo não sai bem tratada de A Capital aquela élite de pseudo-literatos de salão e de revolucionários do Café Martinho que, apesar de um século decorrido, podemos facilmente reconhecer ainda hoje noutros salões e noutros cafés da nossa capital».
Um pequeno mundo, um dos pequenos mundos, quiçá, de que uma cidade ou uma qualquer localidade se compõe. Cada visitante usará, para a ver, o filtro dos seus interesses, resultado de vivências e educação.
E se te disser que muito me fascinou o hábito de, ao entrar no autocarro, o motorista nos saudar (tal como as hospedeiras no avião) e, à saída, nós lhe dizermos «Thank you!» e ele nos responder «You welcome!»… Sim, podes achar estranho, mas… pouco a pouco habituas-te a dar atenção às pessoas, que são elas que fazem o mundo andar.



