OS TIROS PARA O AR E AS BOMBAS CERTEIRAS

Às vezes, parece que as vidas de algumas pessoas são muito mais importantes que as vidas de outras, não é? Os VIP's não podem apanhar sustos, já os palestinianos podem morrer à vontade que ninguém se incomoda muito. Por outro lado, o susto que os diplomatas apanharam talvez venha a ter utilidade na mudança de políticas que têm apoiado a ação genocidade de Israel.

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Tiros de advertência disparados para o ar por soldados israelitas assustaram uma comitiva diplomática ocidental.

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O horror levou o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) de Portugal a chamar o embaixador de Israel para pedir explicações. Um gesto raro, quase cerimonioso, certamente acompanhado por um cafézinho e uma bolachinha, que contrasta violentamente com os meses de passividade perante o massacre quotidiano do povo palestiniano. Outras chancelarias fizeram o mesmo.

Em Jenin, a visita diplomática estava autorizada por Israel. A comitiva, segundo se alega, teria saído do itinerário previsto. Os tiros para o ar, não causaram feridos. Mas bastaram para provocar reações. E é precisamente aí que se revela o escândalo moral: para muitas capitais ocidentais, incluindo Lisboa, um susto vivido por diplomatas merece mais atenção do que a morte real de milhares de civis, entre eles milhares de crianças, esmagados sob as bombas em Gaza ou abatidos nas incursões militares na Cisjordânia.

Não é só hipocrisia. É uma expressão crua de racismo estrutural. A diplomacia europeia não reage do mesmo modo quando quem morre é palestiniano. Pode lançar apelos ao “cessar-fogo”, pode lamentar “a escalada de violência”, mas raramente age, quase nunca condena de forma clara e consequente a potência ocupante. É um padrão de seletividade moral que espelha séculos de herança colonial: há vidas que contam, e outras que podem ser descartadas sem grande custo político ou ético.

O caso português é particularmente gritante. O mesmo MNE que agora se mostra indignado perante tiros para o ar, dizia há poucas semanas que não via “indícios de genocídio” em Gaza — isto, mesmo depois do Tribunal Internacional de Justiça ter admitido a plausibilidade desse crime, na sequência da denúncia da África do Sul, e perante uma avalanche de provas e testemunhos recolhidos por jornalistas, organizações humanitárias e médicos no terreno.

em 13 de maio o MNE português dizia não haver indícios de genocídio em Gaza

Negar o óbvio tem consequências. É essa cegueira seletiva que permite a continuidade de um regime de apartheid, como já foi reconhecido por organizações como a Human Rights Watch, a B’Tselem e a Amnistia Internacional. É essa brandura cúmplice que alimenta a arrogância de um Estado que não presta contas nem quando mata civis, nem quando hostiliza diplomatas. O colonialismo israelita não se esconde: ocupa, cerca, bombardeia, desloca populações, destrói infraestruturas civis. E fá-lo porque sabe que não pagará um preço político real por isso.

Não estamos perante uma “questão complexa” ou “conflito milenar”, como tantas vezes se tenta justificar. Estamos perante uma questão de justiça. Ou da sua ausência. E justiça exige nomear o agressor, proteger os agredidos, e agir em conformidade. O tempo dos equívocos diplomáticos já passou. O que está em causa não é a segurança de uma comitiva: é o direito de um povo a existir.

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