Nesta altura do ano é frequente vermos caloiros com penicos na cabeça, chuchas ao pescoço, todos pintados e com t-shirts a denunciarem que acabam de entrar no curso A, B ou C. As t-shirts das meninas até costumam estar molhadas, reveladoras de um toque de elegância por parte dos cérebros que ditam estes cânones. Os penicos e pinturas não me incomodam, mas os olhos assustados – para não dizer aterrorizados – dos miúdos, sim.
Passei por isso no dia 16 de outubro de 1990, o meu segundo dia no Campus de Gambelas da Universidade do Algarve. O primeiro foi o “dia da indiferença” e permitiu-nos ir para casa com uma falsa sensação de segurança. “Se calhar, aqui não há praxes…” atrevemo-nos a pensar, antes de sermos atirados para uma sala repleta de macacos ululantes no dia seguinte. Nessa sala comemos maçãs com malaguetas, saltámos de uma mesa com ovos na boca, fomos interrogados numa sala às escuras mas onde se vislumbrava uma cabeça de porco (verdadeira) na mesa do interrogador (que gritava connosco de óculos escuros) e, finalmente, fomos desfilados pelas ruas de Faro, depois de sermos decorados com riscos na cara, água e farinha na cabeça, fatos de papel a dizerem “totó, rabeta, paneleiro” e afins… Ah, e já me esquecia da pièce de résistance, que foi a sardinha podre pendurada no pescoço dos caloiros de Biologia Marinha (como eu) e a folha de couve na cabeça dos caloiros de Hortofruticultura, porque estes eram os dois únicos cursos oferecidos na altura.

Foi giro? Teve graça? Não. Odiei cada segundo e a maioria dos meus colegas caloiros também, embora poucos o admitam.
Talvez por isso me tenha esforçado por, no ano seguinte, focar-me em fazer algo divertido e realmente integrador, como pôr a rapaziada toda a gritar “Stein!!” comigo e ultrapassarmos todos os carros alegóricos do desfile, em manobras sucessivas de mosh subversivo, mas intensamente divertido, para todos! Sublinho, para TODOS. Aliás, esse momento foi tão inesquecível que ainda hoje caloiros do meu ano me tratam por “Stein!!” e recordam esse dia muito bem passado.
É para isso que as praxes deviam servir: integrar, divertir, acalmar e, já agora, tranquilizar a caloirada, que se vê longe de casa pela primeira vez e precisa de um ombro amigo e acolhedor, não é de um bando de palermas vestidos de preto (UM ANO inteiro mais velhos…) a berrarem com eles, como se 365 dias de copos lhes desse o direito a autointitular-se de “superiores”.
Mas não.
As praxes servem para humilhar, rebaixar, assustar e amedrontar um conjunto de miúdos que, na sua maioria, queimou as pestanas para chegar ao reduto de Saber onde são enxovalhados por cretinóides que, apesar de só serem um ano mais velho, acham que estão nos Fuzileiros só porque compraram uma farpela (barata e com desconto) preta.

Essa farpela teve um significado especial há muitos anos, ou décadas, quando uma família inteira fazia sacrifícios para que UM de muitos filhos fosse para “a Universidade”. Nessa altura era merecido usar um fato, símbolo do sangue, suor e lágrimas choradas para se chegar àquele ponto. Hoje em dia, entra-se na Universidade com média negativa e as propinas equivalem a um ordenado mínimo. E, mesmo assim, queixam-se e acham-se no direito de dar cabo do juízo de quem entra apenas um ano depois.
Como diz o meu grande amigo Miguel Gonçalves, se um aluno saudável não consegue arranjar um part-time que lhe meta 900 euros na conta em um ano, então tem problemas muito mais sérios do que a falta de dinheiro.
Na América todos os miúdos servem à mesa, tiram fotocópias, ou imperiais, para pagar os estudos. Por cá, os papás metem-lhes dinheiro na conta por MBWay, um telemóvel de última geração no bolso e ainda resmungam quando têm dois testes… por semana.
Eu cá tive dois testes por dia e isso não me matou.
E por falar em “matar”…
…recordemos o trágico acontecimento na Praia do Meco em 15 de dezembro de 2013.
SEIS miúdos mortos.
S E I S.
Seis famílias destroçadas.
Repercussões?
Zero.
Alterações e limitações ao “Código” das Praxes?
Zero.
Mais de dez anos depois as famílias ainda aguardam decisão do tribunal quanto à acção cível que moveram contra a Universidade Lusófona e o “Dux” João Gouveia, que levou sete anos para contar aos pais o que aconteceu naquela noite. Aparentemente estava muito traumatizado e esse trauma devia ser bem mais intenso do que o trauma de doze pais que, vendo bem as coisas, “só” perderam um filho e era o que mais faltava, era acharem-se no direito de pedir explicações à única pessoa que testemunhou o fim dos seus filhos.
Pobrezinho do Dux, deixemo-lo recuperar do trauma em paz, os pais que aguentem.
Este caso faz-me sempre pensar nos americanos e no lobby que não admite mexidelas na legislação que regulamenta o uso de armas. Um massacre num infantário (entre umas centenas de outros…) não foi suficiente para demover estes corações empedernidos de tocarem na legislação porque, afinal de contas, a Constituição confere o direito ao porte de arma, para que a pessoa se defenda dos agressores. E ai de quem tente barrar esses direitos a artistas que demonstram regularmente que não estão a adquirir arsenal automático para se defenderem, mas sim para se prepararem para o Armagedão. Nem pensar.
Mais poderoso do que esse lobby, só mesmo a cúpula lusitana que teima em não tocar num hábito parolo que já custou seis vidas universitárias, sabe-se lá quantas vidas de mancebos militares e milhões de olhares suplicantes que dizem anualmente aos transeuntes “tirem-me daqui!…” mas todos os ignoramos porque não se pode atentar contra o direito à praxe, tal como não se pode atentar contra o direito ao porte de arma na América.
O direito à dignidade e, ligeiro detalhe, o direito à “Vida”, são absolutamente secundários e dispensáveis.
No direito à Praxis palermis é que não se pode tocar.
Venha quem vier.
Sofra quem sofrer.
Morra quem morrer.
Há um aspecto importante que deixo aqui, para terminar em jeito de “serviço público” e peço que partilhem com os caloiros e caloiras nas vossas famílias. Aqui vai: ninguém os pode obrigar a serem praxados. Ninguém. Só têm de virar as costas e caminhar na direcção oposta. O pior que pode acontecer é ouvirem uma bocas foleiras, mas não será pior do que isso. Já dei esse discurso a caloiros na escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar, em Peniche, onde dou aulas. Há uns anos, vendo o esgar desesperado dos caloiros, disse aos mais velhos para acalmarem o fervor praxístico e aos miúdos que podiam simplesmente levantar-se do chão, onde foram obrigados a sentar-se, e sair. Por acaso nenhum o fez. Os mais velhos sorriram, triunfantes. “Está a ver, prussor? Eles estão a gostar!” Pobres coitados que, se calhar, até acreditam no que dizem e ainda não entendem o poder avassalador do efeito “carneiro”. Ou, se calhar, lembram-se demasiado bem dele, do ano anterior, mas preferem ignorá-lo, por vergonha de também o terem vestido.

Os caloiros da tropa já não têm a mesma sorte e, de acordo com as notícias que nos vão chegando, até porrada levam. Pode ser que os 110 milhões de euros de aumentos e regalias que as Forças Armadas acabaram de receber, após anos de pedidos suplicantes, sirvam para abrir os olhos aos que têm como função evitar mortes nas praxes e recruta. Dir-se-ia que não é uma tarefa assim tão difícil, mas as notícias que vão escapando das casernas parecem indicar o contrário.



