O BENEMÉRITO ABRAMOVITCH E PORTUGAL INTRANSIGENTE

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O Governo inglês aprovou a venda do clube de futebol Chelsea, propriedade do bilionário Roman Abramovitch. O novo proprietário vai ser o multimilionário norte-americano Todd Boehly. O valor do negócio é de 5 mil milhões €, aproximadamente.

A venda do clube, anunciada em 7 de maio, tem sido muito escrutinada pelos media. A curiosidade é ver até onde vai o escrupuloso cumprimento das sanções impostas aos empresários russos considerados próximos ou apoiantes do regime liderado por Vladimir Putin.

“O Governo emitiu uma licença que permite a venda do Chelsea”, anunciou a ministra da Cultura e Desporto britânica, Nadine Dorries, na rede social Twitter.

Curiosamente, o argumento para autorizar para que o negócio se faça é que “dadas as sanções que aplicamos a quem esteja ligado a Putin e à sangrenta invasão da Ucrânia, o futuro a longo prazo do clube só pode ser garantido com um novo proprietário”, diz a ministra inglesa.

E acrescenta, num segundo twitt, que “o resultado da venda não beneficiará Roman Abramovich ou outros indivíduos sancionados”. O que já é mais duvidoso. O dinheiro, quanto muito, poderá ficar congelado nalguma conta bancária, mas dificilmente fugirá a quem de direito. De resto, Abramovitch já disse que não quer ficar com nada e que vai doar tudo a instituições de beneficência. Uma jogada de mestre. Ainda vai acabar por ter uma estátua numa “square” londrina, como benemérito.

Já antes disto, Abramovitch doava fortunas. É o maior doador vivo russo, com doações entre 1999 e 2013 estimadas em 3 mil milhões € para construção de escolas, hospitais e infraestruturas em Chukotka, território do extremo oriente da Rússia onde ele foi governador durante uns anos.

PORTUGAL INTRANSIGENTE

O Governo português pôs-se em bicos de pés, neste assunto. O ministro dos Negócios Estrangeiros disse que o negócio não se faria sem autorização dele, uma vez que o cidadão em questão também tem passaporte português. “Seremos intransigentes na aplicação das nossas obrigações jurídicas”, afirmou João Gomes Cravinho.

Segundo notícias veiculadas por diversos órgãos de comunicação social, desde há muito tempo, Roman Abramovitch tem vários passaportes, além do russo e do português. Será igualmente cidadão israelita e lituano. Ou seja, se os ingleses tivessem de pedir autorização aos governos de todos os países que venderam passaportes a Abramovitch, o negócio nunca mais se faria.

Em Portugal, ainda só descobriram uma propriedade que pertencerá a Abramovitch. Um casarão na Quinta do Lago, no Algarve. O imóvel foi avaliado em 10 milhões € e estava à venda, mas o registo de propriedade ficou congelado por ordem do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

A propriedade está em nome de uma empresa que pertence a outra empresa que pertence a uma outra empresa que pertence a uma empresa que talvez seja propriedade de Abramovitch. Tudo registado em offshores paradisíacos, como os capitalistas gostam.

Da maneira como os problemas jurídicos costumam ser tratados em Portugal, é bem provável que a casa permaneça abandonada por muitos anos. Isto se, entretanto, não lhe cair uma bomba atómica em cima.

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