Às vezes regressamos a lugares onde crescemos, onde fomos meninos, e ficamos surpreendidos. Há umas décadas, a ribeira de Odivelas era um esgoto a céu aberto. No inverno, quando chovia, tinha água. Nos outros dias tinha um líquido viscoso e nauseabundo vomitado pelos inúmeros esgotos que ali desaguavam.
Na zona do bairro Olaio, do bairro Dr. Lima Pimentel, Patameiras, ninguém parava 1 minuto para olhar o rio. Naquele tempo, as ratazanas eram ocupantes únicas daquele território que serpenteava pelo emaranhado urbano da maior freguesia da Europa. Odivelas nessa época era apenas uma freguesia de Loures.
Não sei quando foi que se alteraram as coisas. Não assisti ao processo de limpeza do leito da ribeira e ao desvio dos esgotos para uma ETAR, mas hoje tudo está diferente.
Passei pela ponte que liga o bairro Olaio ao bairro Dr. Lima Pimentel e olhei para baixo. A água corria limpa e mansa. Um fio de água, tem chovido pouco, mas o suficiente para alimentar vida. Rãs, patos, pombos, pardais e pintassilgos. E gaivotas. Imagino que ainda existam ratos e cobras de água.
Além da água estar limpa e transparente, nota-se que o canavial está domado, faz parte do cenário, mas não toma conta dele. E assim há espaço para outras plantas e para o bailado dos pássaros.
Hoje, a ribeira de Odivelas já não contribui para conspurcar. É uma linha de vida selvagem que passa pela selva urbana.







