As diferentes “justiças” entre a minha vizinha e o João Rendeiro

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Telefonei à minha rica amiga. Estava inconsolável. Não por causa do que tinha acabado de acontecer ao marido da amiga Maria de Jesus. Em relação à detenção do João, pareceu-me até aliviada. “Pode ser que não me chateiem por causa das coisas que guardei aqui em casa…”, disse, para logo mudar de assunto.

“Sabe, há dias saí de casa e esqueci-me da carteira.” Aqui começou um relato lancinante sobre as injustiças deste mundo. O esquecimento da carteira fez com que não tivesse qualquer meio de pagamento quando chegou à portagem da autoestrada para Lisboa. Desfez-se em desculpas pelo intercomunicador, o portageiro de serviço apenas lhe perguntou como se chamava e qual a morada e levantou a cancela.

Passado uns dias recebeu no correio a notificação para pagar os 80 cêntimos da portagem. Tinha 8 dias. Voltou a esquecer-se.

“Está a ficar muito esquecida”, fiz-lhe notar. “Não seria melhor ir ao médico?”, uma sugestão minha, a idade não perdoa a ninguém, certo? Bom, o que fui dizer! Insultou-me de tudo, sempre com aquele tom amável própria das “tias”.

Mas lá me contou o resto da história. Esquecido o pagamento dentro dos prazos legais, chegou nova carta, desta vez da Repartição de Finanças. A coima é de 25 €, porque veio com redução ao abrigo do regime geral de infrações tributárias. Caso contrário seria de 99,70 €. Ou seja, o Estado cobra uma multa a que chama imposto por conta de uma empresa privada concessionária de uma autoestrada, multiplicando 125 vezes o valor da portagem. “É uma extorsão legalizada. Não tem outro nome”, revoltou-se a minha amiga, e com toda a razão.

O valor da portagem é de 0,80 cêntimos. A coima é de 99,17 €

Se ela se voltar a esquecer de pagar, ainda vai presa. Muitas histórias para contar, no futuro, nos serões com a Maria de Jesus e o João. “Sim, porque ele não vai ficar muito tempo numa cadeia horrível e cheia de piolhos e de gente feia. Não lhe podem fazer tal maldade”, disse ela convencida de que o amigo ainda tem trunfos na manga. 

Para fim de conversa, ainda me disse que tinha aconselhado o amigo João antes da fuga. “Eu bem lhe disse para ir para Veneza. Foi burro, não quis. Em Veneza andam todos mascarados, ninguém se conhece na rua. Em África, um branco é como um farol, foi apanhado.” E se calhar tem razão…

Esta conversa deixou-me a pensar nas disparidades da aplicação de Justiça. Por um lado, o tipo que desfalca em dezenas de milhões o banco que dirige e é tratado nas palminhas pelas instituições do Estado e, por outro, a cidadã que paga com língua de palmo um esquecimento fortuito. Cada um à sua escala, evidentemente.

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