Todos os dias são dias de poupar

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Em pleno Dia das Bruxas, ou Halloween (que nem é uma tradição portuguesa, mas uma estratégia comercial importada dos países anglo-saxónicos) e em vésperas de Dia dos Finados ou de Todos os Santos, alguém resolveu que este seria o Dia Mundial da Poupança.

Uma rápida pesquisa pela Internet revela que a ideia de criar esta efeméride terá nascido no primeiro Congresso Internacional da Economia, em Milão, Itália. No ano seguinte, a data era assinalada pela primeira vez pelo Instituto Mundial de Bancos de Poupança, também em Itália.

Nestes tempos de pandemia, um recente estudo divulgado pela imprensa lusa revela que os portugueses conseguiram poupar mais, porém, estamos aquém dos nossos parceiros europeus, em que a média atingiu 21,5% no primeiro trimestre deste ano. Além disso, revelou um responsável da Deco Proteste ao Jornal de Negócios, existe um baixo rendimento das aplicações (isto quando as há): 0,06% da taxa líquida média de um depósito a doze meses. A taxa de inflação, que gera perdas reais no valor das poupanças, pode ser de 0,7% este ano mas disparar para os 0,9% em 2022. Enquanto os leitores podem fazer contas à vida e tentar perceber, entre as tradicionais e as mais vanguardistas ofertas para fazer o seu porquinho mealheiro, recordo alguns factos, uns conhecidos, outros mais curiosos, sobre a poupança que podemos fazer no dia a dia.

Dicas de poupança

Manter os aparelhos limpos é o básico, mas esta importância vai além do simples asseio: existe quem defenda que manter os aparelhos dos radiadores a óleo, por exemplo, pode ajudar a poupar até 10% de energia eléctrica.

Tomar um duche de água quente é sempre bom, em especial no Inverno, mas cuidado com o excesso de temperatura, porque pode cortar e bem na factura da electricidade; o mesmo se aplica à temperatura da água nas máquinas de lavar roupa e louça. Ah, e cuidado com as torneiras a pingar: custa caro ao ambiente e à nossa carteira ao fim do mês, que o digam as contas.

O bem conhecido truque de apenas colocar a trabalhar os electrodomésticos em carga máxima: ou seja, só ligar a máquina de lavar roupa/louça ou o secador de roupa, se o tiver, quando estiver bem cheio.

Quem não tem caixote de lixo na casa de banho, é uma opção a considerar: não só evita de deitar resíduos na sanita, o que pode dar uma dor de cabeça em termos de esgotos, como evita o desperdício de água. Não quer comprar sacos de plástico para esse caixote do lixo? Simples: reutilize os sacos da fruta e legumes do supermercado.

Quem disse que a moda em segunda mão é má? Pelo contrário, o vintage não só é chique, mas é amigo do ambiente, bom e barato. Para os/as amantes da moda e do estilo, uma viagem pelas lojas em segunda mãe é obrigatória, onde se conseguem por vezes verdadeiros tesouros a preços muito simpáticos. E quem disse que quando uma peça de roupa está estragada, ou precisa de uns ajustes, é para deitar no lixo? Por vezes, gastar alguns euros na costureira, ou pedir ajuda àquele familiar ou amigo/a com máquina de costura, é um investimento a longo prazo. Também no capítulo de móveis e peças de decoração: algures entre sites e redes sociais, ou naquelas lojas, pode estar uma oportunidade muito boa.

Compras no supermercado podem ser uma valente dor de cabeça, em especial, porque nem sempre os cupões de desconto dão o que queremos, mas manter-se atento às marcas brancas e às promoções pode ajudar. Em especial, quando precisamos de comprar algo e por acaso conseguimos aquele cupão de desconto sempre simpático. Atenção ainda aos produtos em fim de prazo de validade, por vezes, apanham-se autênticas pechinchas que são sempre muito agradáveis para a carteira.

A marmita no trabalho é outra opção que veio para ficar ainda nem se falava em pandemia. Quem possa, convém tomar sempre o pequeno almoço em casa e levar marmita para o trabalho. Muitas empresas têm copa com lava-louça e micro-ondas. E, claro, se puder fazer o almoço de domingo em quantidade suficiente para sobrar para o resto da semana, melhor ainda.

Quem tenha plantas ou um espaço num pequeno quintal para hortas, força, vamos em frente, sem medos. Há imensos canais de internet e livros que ensinam a fazer pequenas hortas com truques e dicas, até a partir de restos de outros legumes e vegetais. Sabia que ter cascas de banana de molho em água durante uma hora é um fertilizante sensacional para as suas plantas? E que borras de café e cascas de ovo são preciosos aliados?

Se puder deixar o carro estacionado e usar transportes públicos, aposte no passe, que sai sempre mais barato. Quando puder, ande a pé em curtas distâncias, o que equivale a ginásio de graça ao ar livre. Se de todo não for possível, procure gerir bem a utilização e tente colocar as despesas no IRS, pode ser que venha o merecido (e desejado) reembolso.

Para dicas mais, digamos, fora da caixa, os adeptos da Internet podem encontrar um reality show já com alguns anos (e que, aqui entre nós, justificava-se uma nova edição bicéfala, tanto nos EUA como na Europa). Chamava-se “Extreme Cheapskates” (qualquer coisa como “Avarentos ao Extremo” ou “Forretas ao Extremo”), onde várias pessoas e suas famílias mostravam os seus truques para poupar dinheiro, tanto porque gostam e a economia assim o exige, como quem já está com uma situação confortável mas não desperdiça nem um cêntimo.

Por exemplo, uma grávida a poupar os cêntimos foi literalmente ao contentor do seu bairro para procurar materiais: peças para improvisar uma bomba de extracção de leite, móveis para o marido restaurar e fazer o quarto do bebé, e a mais polémica de todas: vitaminas. O problema, alertaram alguns comentadores, não é apenas que os medicamentos pudessem estar fora de prazo: é que muitas pessoas escondem a droga nesses frascos, como comprimidos de ecstasy e outros; se a grávida não os distinguir e tomar sem querer, os efeitos sobre ela e o bebé podem ser dramáticos. Fora isso, o programa mostrou ainda o casal a regatear amostras grátis de tinta numa loja de ferragens e construção, transformando assim o quarto do bebé numa espécie de arco-íris estranho.

E no capítulo casamentos, uma mãe bastante forreta resolveu casar a filha… no pavilhão desportivo do liceu local. A senhora, que não aparentava estar na pobreza, afirmou-se uma avarenta com orgulho, o que se reflectiu nas bodas da jovem filha – baratas, quando comparadas com o custo médio de um casamento, que pode chegar aos milhares de dólares, mas neste caso, nem aos quinhentos dólares terá chegado. O vestido da noiva foi comprado numa loja em segunda mão, com direito a um simpático regatear por parte da mãe da jovem, porque o dito apresentava uma desagradável nódoa de urina de rato (!); o pavilhão do liceu estava abaixo de aceitável mas a moça lá aceitou ser esse o local onde daria o nó; quem celebrou a boda foi a mãe da noiva depois de se ordenar “ministra” num daqueles cursos online que pululam por todos os EUA; os convidados para o casório tiveram de levar os comes e bebes do copo de água; a marcha nupcial foi sacada de um computador e da Internet, cortesia do irmão da noiva; e o bolo dos noivos foi só para a fotografia porque a sempre prevenida mãe pediu emprestada uma versão em plástico à pastelaria local – o verdadeiro bolo da noive foi uma modesta versão confeccionada em casa. Não é de surpreender, assim, que no primeiro Natal como mulher casada, a jovem herdeira tenha mostrado uma árvore de Natal feita com troncos de outros pinheiros e bolas de algodão reutilizadas várias vezes (maquilhagem, verniz das unhas…) a simular uma neve, digamos, em terceira ou quarta mão.

Quem tem família já sabe, gerir o orçamento é um desafio; uma jovem mãe de dois filhos leva esse desafio muito a sério. Os restos das refeições são muito bem guardados e reaproveitados sem margem para desperdício, por exemplo; na hora de lavar a roupa, a mãe trabalhadora e dona de casa aproveita as seringas do local de trabalho (é técnica de análises clínicas) para dosear gota a gota o detergente e o amaciador de roupa. O marido demonstrou perante as câmaras de filmar uma paciência de santo, sobretudo nos “duches do Exército”: a sempre pressurosa dona de casa/gestora obriga todos a tomarem duches controlados ao segundo e com a luz da casa de banho apagada, recorrendo às sempre fiéis velas. Aquando da confecção de uma lasanha para toda a família, esta dona de casa levou o conceito de dois-em-um a outro nível: a máquina de lavar louça lavou os pratos e talheres num andar, e quem presidiu ao andar de cima foi a dita lasanha, embrulhada em metros de papel de alumínio. Na hora de jantar, o cunhado da dita senhora disse “a lasanha sabe a água!”, e ainda bem que não sabia a detergente…

Noutro episódio, um pai de família (esposa e dois filhos) que detesta ver o dinheiro a sair do bolso mostrou as suas estratégicas, com a argumentação de que a vida está difícil e que quer preparar os filhos para o futuro: fã de barbecues no seu quintal, fazia render a carne para os hambúrgueres misturando bolachas salgadas (desfeitas) na carne e dividindo as fatias de queijo; os convidados, claro está, eram livres de trazer bebidas e petiscos para alegrar a festa; e o combustível para o barbecue eram pedaços de madeira da floresta mais próxima e jornais velhos, sempre numa de poupar o dinheiro da (então muito cara) lenha. Até tinha um cronómetro no frigorífico: qualquer filho que abrisse o dito por mais de 25 segundos, era-lhe descontado na mesada. Chegou a improvisar uma destilaria na garagem para fabricar cerveja caseira. E por falar em trocos, este cidadão adorava uma boa caça ao tesouro nos depósitos dos aspiradores das bombas de gasolina: numa das filmagens, ficou todo satisfeito por ter achado 50 cêntimos de um dólar e uns brincos. No capítulo “comer fora com a família”, a estratégia de poupar entrava de novo em acção: num diner típico dos EUA, a família partilhou as clássicas “club sandwiches” fazendo render uma por duas pessoas, e em vez de pedirem refrigerantes, os petizes misturaram o sumo espremido de limões e o açúcar, que eram oferta da casa, obtendo assim uma espécie de limonada açucarada e aguada de borla.

Em suma, não se pode poupar nas estratégias de salvaguardar o nosso saldo bancário, mais do que nunca, mas de preferência com o bom humor possível.

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