Sintra, na primeira manhã do novo elenco autárquico

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Levantou-se ainda antes do sol nascer e arrumou o saco cama novo dentro do saco. Foi tomar café. Depois lavou uma camisa e as peúgas, abriu o chapéu de sol e pendurou a roupa a secar numa das varetas do chapéu.

Passado pouco tempo, o Largo Dr. Virgílio Horta ficou cheio de elementos da Polícia Municipal, certamente para receber o “novo” presidente de Câmara. Que é o mesmo. Era a primeira manhã do novo mandato autárquico. Os senhores vereadores e demais autarcas tinham tomado posse no dia anterior. A Polícia Municipal não queria que essa manhã fresca fosse perturbada pela costumeira presença de Manuel Ildefonso, o sem abrigo que vive ali mesmo em frente à Câmara Municipal, dia e noite, sentado ou deitado na pedra do murete, em protesto mas não incomodando ninguém exceto o presidente da Câmara Municipal.

Fizeram tudo para o tirar dali. Obrigaram-no a retirar todos os seus pertences da via pública. Não podia ter nada em cima do muro, nem sequer no chão. Manuel Ildefonso ficou com todos os seus bens no colo. E teria ficado assim o dia todo, se fosse preciso. O presidente da Câmara não tem ponto para picar, nunca se sabe bem a que horas chega ao local de trabalho.

A polícia só desarmou depois de Basílio ter chegado e desaparecido da vista no interior do edifício. Foi quando Manuel Ildefonso voltou a colocar as suas coisas no chão. Ele sabe que tem de resistir às provocações, sob pena de ir parar à cadeia para cumprir uma pena que ficou suspensa.

A sentença que o tribunal de Sintra decretou, refere-se a uma mordida que Manuel Ildefonso deu na mão de um agente da Polícia Municipal. Foi numa tarde de inverno, quando o agente Carlos, depois de ter almoçado, quis ser o mais zeloso do quartel e decidiu retirar os cartazes de protesto de Manuel Ildefonso da via pública. Não deu voz de prisão ao cidadão, nem elaborou auto de apreensão. Quis agir à cowboy e atirou-se aos cartazes e ao senhor Manuel, imobilizou-o fisicamente e quando tentava aplicar o célebre “mata leão” levou com uma mordidela numa reação de autodefesa do senhor Manuel.

Acontece que este arguido nunca foi chamado a depor em tribunal, nunca lá tinha ido antes, mas foi chamado no dia da leitura da sentença. Foi quando ficou a saber que tinha uma pena de prisão suspensa. Se prevaricar, terá de a cumprir. Mas o senhor Manuel Ildefonso sabe que é isso que querem que ele faça.

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