Os meninos-soldado de Portugal

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Rómulo Costa está a ser julgado em Lisboa acusado de terrorismo. Há uns anos, Rómulo terá feito uns telefonemas para a Turquia e ter-se-á “embrulhado” com o DAESH. Dizem.  Segundo as acusações, Rómulo pertencia ao núcleo terrorista de Massamá. Nem mais! Massamá teve assim representação na guerra labiríntica da Síria, que justificou o arraso total daquele país.

Ficou tudo em escombros. À excepção de uma base militar soviética que lá continua intacta.  Essa destruição total provocou a fuga de centenas de milhar de homens, mulheres, idosos e crianças. Que estão agora às portas da Europa, onde são tratados como hienas.

Muito antes disso, Rómulo passou a juventude enfiado num dormitório, sem ocupação nem esperança.  A revolta foi verbalizada no hip-hop e no rap. Não tinha lugar à mesa da sociedade consumista. A cor da pele também o afundou. Era escurinho. Se fosse “tio” seria o máximo.

Naquelas bandas há muitos escurinhos. No Cacém, Rio de Mouro, Massamá. E também na Arrentela, Cruz do Pau ou Seixal. Serão as futuras representações de Portugal nessas guerras cheias de manhas.

O super-juiz Carlos Alexandre ouviu Rómulo e deu seguimento à acusação.  Ninguém se lembrou das razões dessas guerras e dos morticínios que varrem aquelas paragens há séculos.  Ninguém estranhou a gestação do DAESH, que foi antes ISIS e Estado Islâmico.  Nem porque razão a Arábia Saudita e os Emiratos ficam sempre de fora dessas pulhices.

Também não leram o «Nosso Agente em Havana» de Graham Greene, ou «O Alfaiate do Panamá» de John Le Carré. Essas não foram leituras do super-juiz Carlos Alexandre, mais adepto de Gabriel Garcia Marquez.

Rómulo telefonou para o turbilhão de eternas guerras santas, onde judeus, cristãos e muçulmanos disputam o Deus único.  Por isso, o mesmo chão de uma igreja, pode ser uma sinagoga ou uma mesquita. Rómulo não pensou nesse grande pormenor. Os povos ignoram. E os juízes cultos acham que a sua capela é única.

Em rigor, Rómulo está a ser julgado por telefonemas e passagens de avião que ninguém explica. Ele e outros seis portugueses desaparecidos são acusados de terrorismo em locais onde não é possível fazer prova.

Iam espalhar o terror, diz o acusador. Como se uma guerra se fizesse por convites a amigos. É pá! Arranja aí uma malta que venha dar uns tiros. DAESH? O que é isso? É uma coisa fixe. E quem financia a frota de pick-ups? Sei lá.

O Rómulo vai apanhar da grossa. Vamos ter um mártir, para ser recordado todos os dias na mesquita erguida por Medina com dinheiros públicos. Baterá com os costados na prisão e talvez possa assistir pela TV ao desfile anual dos Pupilos do Exército e do Colégio Militar na Avenida da Liberdade. Ali,marcham centenas de meninas e meninos-soldado miúdos dos 11 aos 18 anos de espingarda Mauser ao ombro.

Ó Rómulo! Tu andaste a ligar para os telefones errados.  Querias instrução, comida, cama e roupa lavada para teres futuro? Querias andar a cavalo e dar uns tiros? Querias ser um menino-soldado? Ligavas para os miúdos que brincam aos soldadinhos em Portugal.

Se tivesses, pelo menos, 300 euros por mês para pagar, claro.

desfile do Colégio Militar, março de 2019

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