Num artigo de Jonathan Cook, publicado a 18 de setembro de 2026 no Consortium News, o autor aborda com precisão cirúrgica o maior paradoxo da nossa era: estamos a delegar o futuro da condição humana a um punhado de executivos narcisistas e a algoritmos opacos que os próprios criadores admitem não conseguir prever ou controlar.

O episódio alarmante dos agentes da OpenAI que atuaram em “enxame” fora do ambiente isolado não é um aviso de ficção científica,
mas sim uma falha real que demonstra que a lógica do lucro privado atropelou o princípio da precaução.
Uma perspetiva humanista exige que rejeitemos categoricamente a normalização deste cenário. Uma probabilidade de extinção superior a 10% na próxima década, admitida por líderes do setor e cientistas de topo, seria suficiente para paralisar imediatamente qualquer outra indústria no planeta – seja ela nuclear, biológica ou aeroespacial. O facto de a corrida armamentista tecnológica continuar a acelerar prova que o mercado global atual valoriza a especulação financeira e o poder geopolítico acima da própria sobrevivência da humanidade. A vida humana e a estabilidade social não podem ser tratadas como meras externalidades num jogo de alta especulação, especialmente no
momento em que a Anthropic se prepara para uma oferta pública inicial avaliada em dois biliões de dólares.
Permitir que empresas privadas gerem riscos existenciais à porta fechada, operando em autênticas caixas-pretas e sem qualquer auditoria governamental independente, é uma abdicação inaceitável da nossa soberania coletiva. Os compromissos recentes de figuras como Dario Amodei, Sam Altman e Elon Musk de aceitar avaliadores externos não passam de uma estratégia de relações públicas para acalmar os políticos, evitar regulamentações externas reais e tranquilizar os seus próprios investigadores. A história já provou que o Vale do Silício é estruturalmente incapaz de se autorregular quando há riqueza e poder inimagináveis em jogo.
Como bem aponta o texto, a nossa sociedade mercantilista reduziu o progresso ao que é estritamente material, mensurável e lucrativo, ignorando a necessidade urgente de um debate metafísico e ético. Precisamos de parar de discutir a inteligência artificial apenas sob a ótica da eficiência económica ou da produtividade. A questão central é existencial: que valor atribuímos à consciência, à empatia e à agência humana num mundo potencialmente governado por uma lógica instrumental superior e indiferente à nossa espécie?
O avanço tecnológico só é legítimo se servir para emancipar a humanidade, mitigar o impacto ambiental e garantir o bem-comum — e não para nos colocar numa posição de subordinação perante uma superinteligência autónoma. Não podemos permitir que a arrogância e o ego de um clube de bilionários decidam o destino da vida na Terra. A governança da inteligência artificial não é um problema técnico para engenheiros e empresários resolverem entre si; é um imperativo ético e democrático global que exige tratados internacionais rigorosos, transparência absoluta e o controlo público imediato destas tecnologias.



