“As feiras constituem uma das mais singulares instituições medievais e cumprem essencialmente uma função económica reunindo, sempre em lugar de comunicação fácil, dentro de um calendário convencionado, produtores, consumidores e distribuidores, aproveitando-se, no geral, as ocasiões de festa de igreja que havia criado pela Europa fora a dita “paz da feira” que proibia disputas e vindictas enquanto elas durassem e durante o tempo em que os mercadores andavam no caminho.
À semelhança das romagens, as feiras desempenhavam um importante papel social e cultural mercê da sociabilidade activa que promoviam entre a gente que, na sua maior parte, vivia pelo ano fora dobrada sobre a terra ou sobre a banca dos ofícios. Era nelas que mais corriam as notícias sobre o mundo, vozes de guerras, de estranhas descobertas, de boas ou más colheitas pelas terras ao redor. As feiras promoviam ainda a melhoria dos meios de comunicação e de específicas obras públicas com a exigência da reparação dos caminhos e o levantamento de abrigos, de alpendres ou pousadas para homens e bestas, de fontanários com seus tanques em que todos se dessedentassem.
Sob o ponto de vista jurídico as feiras foram geradoras de normas que muito contribuíram para o apaziguamento dos conflitos e uma maior justiça social que se revelava, ainda que de forma incipiente, num certo nivelamento das classes.” (CORREIA, Alberto in Feira de S. Mateus. Os cartazes, Câmara Municipal de Viseu, 2009)
A Feira de S. Mateus, bastos anos conhecida como Feira Franca, tem sua origem na Carta de Feira outorgada a 10 de Janeiro de 1392 por D. João I ao Senado Municipal por ocasião de uma demorada estadia em Viseu onde se deslocara para reunir Cortes ao tempo em que ali lhe nasce o primeiro filho e sucessor, El-Rei D. Duarte.
Outorga-lhe as regalias da mais antiga Feira de S. Bartolomeu, de Trancoso e estabelece-lhe uma periodização anual a iniciar-se a 3 de Maio e com a duração de um mês, não ficando definido no diploma o lugar de realização da mesma.
Circunstâncias várias, pestes ou razias de Castela, não auguram destino feliz a esta feira que o Infante D. Henrique, Duque de Viseu (1415) e Alcaide-mor de Viseu (1416) intenta restaurar solicitando ao rei, seu sobrinho, D. Afonso V, através do Infante D. Pedro, seu irmão e Regente do Reino, um novo diploma. Acede o Infante D. Pedro, restaura a feira por diploma de 22 de Fevereiro de 1444, estabelece-lhe como lugar a Cava (mais tarde dita de Viriato), marca-lhe a duração de quase um mês, em Outubro e outorga-lhe os amplos privilégios que ao tempo tinha a Feira de Tomar. Dentre as regalias o diploma permitia ao Infante aplicar o rendimento das boticas (espaços de comércio) à Capela que o Infante levanta no Mosteiro da Batalha.


É um tempo de prosperidade o que se segue, logo travado após a morte do Infante, em 1460, que antes, em testamento, legara a sua realização ao Cabido da Sé de Viseu que não soube manter-lhe a relevância, mesmo quando lhe estabelece novo pouso no Rossio da Ribeira onde hoje, alargado o espaço, ainda tem lugar.
O Senado Municipal tomará conta da feira em data incerta e a feira ganhará por muito tempo a dimensão das grandes feiras da Península até que, pelos finais do século XIX, entra em franco declínio devido a causas diversas de que se libertará anos mais tarde, voltando a florescer.



