A história do Big Bang já foi contada inúmeras vezes e começa quase sempre com o mesmo protagonista: o astrónomo Edwin Hubble. O seu legado está imortalizado no mais famoso telescópio espacial da órbita terrestre. Contudo, a maior revolução da cosmologia moderna nasceu do trabalho de um homem improvável, que trocou as rédeas de carga animal pelas lentes do maior observatório do mundo. O seu nome era Milton Humason.
Nascido no Minnesota em 1891, dois anos após Hubble, Humason apaixonou-se pela região de Mount Wilson durante um campo de férias nas colinas acima de Los Angeles. Numa época anterior à massificação dos camiões, o jovem de 14 anos abandonou a escola para se tornar Mule Skinner, conduzindo parelhas de mulas para transportar materiais em terrenos de difícil acesso.
Naquela altura, o céu da Califórnia ainda não sofria com a densa poluição provocada pela inversão atmosférica atual. O ar era perfeitamente estável, ideal para a observação dos astros. Foi ali que começou a ser instalado o telescópio de 100 polegadas de Mount Wilson, a joia da coroa da astronomia que dominaria a investigação científica durante as três décadas seguintes.
O contínuo que fascinou os astrónomos
Humason foi contratado com as suas mulas para carregar a madeira necessária à construção do observatório até ao topo da montanha. O destino, porém, reservava-lhe uma viragem radical. Apaixonou-se por Helen Dowd, filha do engenheiro-chefe do complexo. Casaram-se e, dois anos depois, Humason conseguiu emprego no observatório como contínuo e técnico de limpeza.
Fascinado pela rotina dos cientistas, começou a voluntariar-se nas longas noites de vigília para ajudar a revelar as chapas fotográficas. O seu talento natural e a precisão técnica impressionaram de tal forma a liderança do centro que, em 1919, o diretor George Ellery Hale tomou uma decisão inédita: promoveu o antigo condutor de mulas a membro permanente da equipa de investigação.
Desafiar Einstein nas noites da Califórnia
Em 1915, Albert Einstein tinha publicado a Teoria da Relatividade Geral, demonstrando como a massa de planetas e galáxias distorce o espaço-tempo. Contudo, o próprio Einstein estava firmemente convencido de que o Universo era estático e imutável – um “fixismo” que ecoava o erro dos geólogos da época, que também acreditavam que os continentes nunca se moviam.
O telescópio de 100 polegadas era o único instrumento no planeta capaz de testar a teoria de Einstein. Hubble assumiu a missão, mas faltava-lhe a destreza manual e a paciência para as complexas medições noturnas. Foi a sinergia com Humason que mudou a ciência para sempre.
Noite após noite, era Humason quem apontava o gigante telescópio para os confins do cosmos. O ex-condutor de carroças media o redshift (o desvio para o vermelho), um fenómeno físico onde a luz de objetos em fuga é esticada para comprimentos de onda mais longos, semelhante ao efeito sonoro de uma ambulância que se afasta.
A Expansão de “Hubble-Humason”
Os dados recolhidos por Humason provaram o impensável: quase todas as galáxias se estão a afastar de nós. Quanto mais distantes estão, maior é a sua velocidade de fuga.
Embora a comunidade científica tenha batizado o fenómeno de “Expansão de Hubble” e a métrica de “Constante de Hubble” – já que este assinou o famoso artigo de 1929 -, os registos históricos mostram uma colaboração inequívoca. O artigo imediatamente anterior, submetido à National Academy of Sciences, baseava-se em dados de galáxias distantes obtidos exclusivamente por Humason. Por justiça histórica, o mundo deveria chamar-lhe “Constante de Hubble-Humason”.
Foi esta descoberta que permitiu aos cientistas rebobinar o filme do tempo. Se tudo se está a afastar, significa que há cerca de 14 mil milhões de anos toda a matéria e o próprio tempo estavam concentrados num único ponto. Nascia a teoria do Big Bang – não uma explosão dentro do espaço, mas uma expansão literal do próprio tecido do espaço.
O merecido título de Doutor
“Não sabemos de facto o que aconteceu no início”, admite a cosmóloga de Harvard, Lisa Randall, sublinhando a complexidade intuitiva do tema. Mas sabemos graças a quem o descobrimos.
Em 1950, a Universidade de Lund, na Suécia, corrigiu parte da injustiça histórica ao atribuir a Milton Humason o título de Doutor Honoris Causa. Longe de ser apenas um prémio de incentivo a um jovem promissor, foi o reconhecimento definitivo a uma carreira madura que provou que o Universo tem uma idade finita e uma história para contar. É hora de a história oficial deixar de olhar para Humason como o antigo homem das mulas e recordá-lo como o gigante da ciência que ele realmente foi.




