TU NÃO ÉS DAQUI

Há dias em que Luanda parece escrever pequenas crónicas à minha frente, sem que eu tenha sequer de as procurar. Na passada sexta-feira aconteceram duas. A primeira passou-se numa pequena casa chinesa de fotocópias. Digo “casa chinesa” porque foi assim que imediatamente a identifiquei, embora, pensando melhor, o proprietário possa perfeitamente ser vietnamita. Até há duas bandeiras do Vietname, o que não ajuda muito a esclarecer a questão.

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O homem estava irritado diante do computador. Não com o computador, propriamente dito, mas com o Windows em português. Percebia-se que tentava dar uma ordem à máquina e que as palavras que lhe apareciam no ecrã não ajudavam.
Chamou um empregado. Perguntou qualquer coisa. O empregado respondeu-lhe em português, tranquilamente, como quem já domina aquela pequena geografia de menus, comandos e caixas de diálogo.
O homem insistiu, agora numa língua que eu não percebi, e acabou por dizer, com alguma impaciência:
— English! English!
Foi então que outro homem, que estava ao fundo da loja e que até aí não tinha participado na conversa, comentou:
— English nada. Se ele quiser, que fale português.

Achei graça. Não tanto à situação -que devia ser perfeitamente normal para quem ali trabalha- mas à pequena batalha linguística que acabara de acontecer diante de mim. Um homem que provavelmente veio de muito longe, ou talvez não, a viver em Angola, irritado porque o computador lhe fala português. Um empregado que responde em português. E um terceiro homem que, sem hesitação, estabelece a regra: aqui fala-se português.
Não sei porquê, mas fiquei a pensar naquela frase.

A segunda cena aconteceu no passeio, mesmo em frente, quando saí da loja. Duas mulheres discutiam. Não percebi como a discussão tinha começado. Podia ser uma questão passional. Podia ser dinheiro. Podia ser fruta. Em Luanda, uma discussão que começa com fruta pode rapidamente parecer uma discussão sobre a dignidade humana, e uma discussão passional pode assumir, em segundos, contornos de disputa territorial.
Não quis aproximar-me. Mas passei suficientemente perto para ouvir algumas coisas que foram ditas. As duas mulheres trocavam acusações, cada uma aparentemente convencida de que a razão estava inteiramente do seu lado. Até que, a certa altura, uma delas
disparou para a outra:
— Tu cala-te! Tu tens dupla nacionalidade, angolana e da Namíbia. Tu não és daqui!
E pronto.
A discussão ganhou outra dimensão. Porque, de repente, já não era apenas sobre aquilo que as duas mulheres estavam a discutir. Uma delas tinha acabado de retirar à outra algo muito maior: o direito de ser “daqui”.

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