PORTUGAL, ASSIM NÃO VAMOS LÁ

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Portugal continua a ambicionar o lugar entre as economias mais desenvolvidas da Europa. Queremos melhores salários, maior bem-estar e empresas capazes de competir nos sectores tecnologicamente mais avançados. Mas dificilmente lá chegaremos enquanto mantivermos uma economia excessivamente dependente do turismo, do imobiliário e de serviços de reduzido valor acrescentado.

Os países que lideram o crescimento económico apostam na investigação científica, na inovação e na indústria. Produzem tecnologia, equipamentos de precisão, produtos farmacêuticos, robótica, software ou novos materiais. São sectores que geram riqueza, exportações e empregos qualificados.

Portugal continua atrasado nesse caminho. O peso da indústria permanece reduzido e o crescimento económico, embora positivo em alguns períodos, continua insuficiente para aproximar o país dos níveis de riqueza da maioria dos parceiros europeus. Sem uma base industrial sólida, a convergência será sempre lenta.

O problema não está apenas na dimensão das empresas. Quem investe procura um sistema judicial célere, estabilidade fiscal e previsibilidade nas decisões públicas. Sempre que essas condições falham, o investimento procura outros destinos.

Ao mesmo tempo, continuamos a formar milhares de jovens altamente qualificados que acabam por desenvolver as suas carreiras no estrangeiro. Portugal suporta os custos da formação, mas o retorno desse investimento beneficia outras economias.

Apesar disso, existem sinais positivos. Algumas empresas industriais portuguesas conseguem competir em sectores de elevada tecnologia e as exportações de produtos como o vinho, o azeite, a cortiça ou os recursos minerais demonstram que o país possui capacidade para criar mais valor. O problema é que estes exemplos continuam a ser insuficientes para alterar a estrutura da economia.

A questão é simples: queremos continuar dependentes de actividades assentes em baixos salários e na procura turística, ou construir uma economia baseada no conhecimento, na inovação e na produção de bens de elevado valor acrescentado?

Essa mudança exige escolhas políticas consistentes. Exige investir na ciência, reforçar a indústria, melhorar o funcionamento da justiça e criar um ambiente favorável ao investimento produtivo. Exige também discutir, sem preconceitos, a utilização dos recursos naturais, conciliando desenvolvimento económico e proteção ambiental.

Sem essa transformação, Portugal continuará a crescer abaixo do seu potencial. O turismo continuará a ser importante, mas dificilmente será suficiente para garantir a prosperidade que o país ambiciona. Sem uma aposta firme na inovação e na produção, continuaremos a adiar a convergência com as economias mais avançadas da Europa.

1 COMENTÁRIO

  1. A insistência de Portugal em adiar as reformas estruturais profundas cristalizou o país numa armadilha de baixo valor acrescentado, onde os sucessivos ciclos governativos optaram consistentemente pela linha de menor resistência. Ao invés de se desenhar uma estratégia industrial e tecnológica robusta, o poder político preferiu subsidiar a monocultura do turismo de massas e alimentar a especulação imobiliária, canais rápidos para gerar receita fiscal e cosmética estatística no curto prazo. Este modelo económico, assente em sectores que exigem pouca qualificação e pagam salários historicamente baixos, espartilhou a sociedade portuguesa a nível demográfico, habitacional e laboral. A reabilitação urbana e os incentivos ao capital estrangeiro inflacionaram os centros urbanos, expulsando a população local e criando uma fratura social entre uma minoria que beneficia da valorização dos ativos e uma maioria trabalhadora que empobrece a trabalhar, asfixiada pelo custo de vida.Esta assimetria torna-se ainda mais gravosa quando analisada à luz do esforço financeiro que o país faz na educação. Portugal qualifica as suas gerações mais jovens a custos elevadíssimos para o erário público, mas a estrutura económica vigente é incapaz de absorver este talento científico, médico e tecnológico. O resultado é um subsídio indireto e gratuito às economias mais ricas da Europa Central e do Norte, que acolhem os engenheiros e investigadores portugueses sem terem gasto um único euro na sua formação. Esta fuga de cérebros drena a massa crítica essencial para modernizar o tecido empresarial e acelera o inverno demográfico de um país envelhecido, cuja sustentabilidade da segurança social fica seriamente comprometida.O bloqueio à transformação económica é também institucional, mantido por uma justiça cronicamente lenta, burocrática e imprevisível. Nenhuma empresa de alta tecnologia ou fundo de capital de risco intensivo aceita investir num ecossistema onde a resolução de um litígio comercial ou o licenciamento de uma fábrica pode arrastar-se por uma década nos tribunais. Esta paralisia jurídica funciona como um filtro invertido: afasta o investidor produtivo e transparente, que procura segurança e estabilidade, e atrai o investidor especulativo ou o lóbi de compadrio, que prospera na opacidade do sistema e na proximidade ao poder político. A par desta inércia judicial, a instabilidade fiscal crónica transforma o Orçamento do Estado num labirinto anual de microtaxas e alterações legislativas, impedindo as pequenas e médias empresas de planearem investimentos a longo prazo ou ganharem a escala necessária para competir nos mercados globais.Por fim, o debate público em torno do aproveitamento dos recursos naturais do país permanece paralisado por dogmas ideológicos e falta de coragem política, falhando a conciliação entre a sustentabilidade ecológica e o desenvolvimento industrial. O erro crasso dos sucessivos governos foi confundir o crescimento conjuntural, ciclicamente mascarado pelas injeções de fundos europeus, com o verdadeiro desenvolvimento estrutural. Sem uma rutura com este modelo, Portugal continuará a divergir do núcleo europeu, preso a uma economia de serviços de baixo custo, enquanto assiste à saída da sua juventude e ao definhamento do seu potencial produtivo.

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