
Era costume passar por ali à mesma hora, vê-lo colado ao poste do semáforo à espera que mudasse para vermelho, depois correr a coxear para abordar os condutores.
Quase sempre acontecia…o corpo quase transparente…os movimentos quase tolhidos na pressa de apanhar as migalhas do tempo. Só os olhos, de um verde transparente como as águas de uma lagoa, se mantinham acesos, calorosos.
Eram ainda brilhantes. Emitiam sorrisos como os últimos raios de sol. Estendia a mão num gesto que ainda me dói. É tão aviltante um ser humano ter de estender a mão à indiferença dos outros!

Aceitava. Bebia logo. Depois comia durante a ronda de segundos por entre os automóveis parados.
O verde não era esperança para ele. Mal a luz do semáforo mudava, buzinavam-lhe com força enquanto ele corria para o refúgio improvisado: uma tira de passeio à direita para paragem de autocarros, onde acabava de comer a única refeição do dia.
Começava a trazer-lhe um lanche “rezando” para que ainda lá estivesse quando o trânsito na ponte era intenso…que o semáforo funcionasse a seu favor e ele visse o automóvel.
Mas a lucidez dele estava quase intacta. Os seus 20, 22, 25 anos tinham quase a certeza, ou uma esperança remota, de que alguém como eu passasse antes de anoitecer e lhe atirasse o saco, se a luz do semáforo não estivesse de feição.
Era sempre aos sábados.
Na cama não conseguia apaziguar o sono. As perguntas que qualquer um de nós faria, impunham-se à serenidade.
Quem o metera no vício? Seria ele sozinho, curioso pela experiência? Como se aguentava tantos meses, já trôpego, a voz entaramelada? Por que razão, quase morrendo de fome e a sucumbir à dependência, tinha uma cabeleira castanha tão farta e ondulada como a de um anjo… uns olhos puros e brilhantes como estrelas em noite límpida… um sorriso de bondade que nos comovia logo?
A última vez que o via estava mais agitado. Voltava a pedir dinheiro.

E os olhos abriam-se-lhe redondos como dois sóis.
A luz do semáforo mudava. Ele corria para a ilha da paragem. Com o cacho de uvas preso em ambas as mãos, a boca enterrada no meio bem suculento, comia com gula e deleite.
Uma dor atravessava-me o peito: precisaria mesmo do preço de um bilhete para ir ao hospital? Se lho desse, salvava-lhe a vida, ou apressava-lhe a morte?
Não consegui olhar para trás. O trânsito fluía como um rio caudaloso, lamacento.
Quantos dos belos automóveis pertenciam aos barões da droga?
Nunca mais o vi. Os lanches seguintes já não lhe fariam falta.
Chamava-lhe anjo, que outro nome lhe poderia chamar…



