CONTRA A GUERRA: GREVE DE SEXO

Lindo, lindo, lindo! Uso o qualificativo para o espectáculo, sem qualquer receio de mal-entendido, porque me apresso a explicar.

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De facto, qualificar de ‘linda’ uma peça teatral sugere algo de «vistoso», quiçá «espampanante», a arriscar que só a aparência seja tida em consideração. Arrisco. É que esta versão de uma comédia milenar, do tempo da guerra entre Atenas e Esparta, na Grécia Antiga, surpreendente versão dramatúrgica de Miguel Graça, é bonita de se ver, sim, mas constitui, sobretudo, o que de mais genuinamente experimental uma companhia experimental poderia apresentar.

Tem roupagens (cenográficas, por exemplo, para já não falar do apropriado guarda-roupa) da “revista à portuguesa”, certo; a Voz (Ana Ester Neves) até pode assumir o papel do compère; mas a sábia adaptação a uma Prova de Aptidão Profissional seduz.  Na verdade, importava que cada um dos finalistas da Escola Profissional de Teatro de Cascais fosse, de per si, posto à prova em todos os itens: movimentação, gesto, expressão corporal, voz… E, quando a Voz (à maneira dos antigos coros gregos, misteriosa como eles…) o chama pelo número – «Corpo nº X» – no início de cada cena, o actor sabe que é a sua vez de mostrar o que vale, olhos e ouvidos estão inteiramente postados nele. Actuação individual aí; actuação em conjunto, a maior parte das vezes, no decorrer da acção, cantando, bailando em sincronizado movimento.

Para a beleza contribui – pode parecer mentira… – a habitual nudez do ambiente criado, justamente pelo contraste, acentuado pela diversidade, exuberância e originalidade dos figurinos (desenhados por Fernando Alvarez, executados por Rosário Balbi). À plataforma elevada, ao fundo,(a «Acrópole», se acede por uma rampa, dum lado, e por uma escada, do outro. Aos lados, esquemáticas ‘casas’ para onde os actores de vez em quando se retiram.

O tema – sabe-se! – é bem dramático: os horrores da guerra, a inutilidade dos conflitos armados. Ontem e hoje! Assim, pois, como quem não quer a coisa, fixando a atenção num “pormenor”, que, afinal, não será assim tanto de somenos como pode dar-se a entender: a natural necessidade de satisfação sexual tanto do homem como da mulher, devida à longa ausência do parceiro nas lides guerreiras. Plenamente justificada a ‘greve’ feminina proposta por Lisístrata e aceite pelas atenienses: nada de sexo, enquanto a Paz definitivamente se não firmar!…

Muito gostaríamos nós que, rapidamente, a deposição das armas se concretizasse para dar lugar a uma paz duradoura. Lisístrata e as mulheres venceram, a «guerra do sexo» venceu a das armas.

Escreve Miguel Graça no seu bem elucidativo texto da folha de apoio:

“A Voz não parece ter autoridade por mérito, tem-na porque alguém a colocou numa situação de poder. Observa, convoca, distribui instruções, corrige, interrompe e classifica. Trata o espectáculo como se fosse uma audição ou uma experiência de laboratório. […] Tem uma linguagem fria, técnica e quase administrativa. […] Limita-se a definir o que deve acontecer e as condições em que cada corpo pode existir.

Antes de serem personagens, os actores são, por isso, chamados Corpos. […] No entanto, aos poucos, aquilo que parece ser apenas um exercício começa a transformar-se. Os Corpos ganham voz, relação, conflito, desejo e capacidade de agir […].”

É essa passagem que organiza esta versão cénica: do campo observado ao actor em acção. Lisístrata continua a ser uma peça sobre mulheres que obrigam os homens a parar a guerra, mas torna-se também, aqui, uma peça sobre jovens actores que aprendem a falar, a falhar e a descobrir uma vontade própria.

Talvez a Comédia sirva ainda para isso: mostrar que nenhuma autoridade é tão sólida como parece quando encontra diante de si corpos vivos, capazes de rir, de desejar e de desobedecer a uma ordem que os quer cada vez mais formatados, previsíveis, inofensivos e iguais».

Esta 192ª produção do Teatro Experimental de Cascais teve encenação de Manuela Couto, assistida por Rodrigo Aleixo. A azougada coreografia é de Rita Speider. A bem adequada música é agradável original de Tomás Alves.

Além dos 24 alunos finalistas da EPTC, temos em cena actores da Companhia: Teresa Côrte-Real (a consubstanciar aqui, como mulher de limpeza, a memória do Teatro, do ‘seu teatro’), Luiz Rizo e Sérgio Silva.

Em cena, no Teatro Municipal Mirita Casimiro (Monte Estoril), de terça a sábado às 21 horas e ao domingo às 16. Até dia 26.

É habitual dizer-se: «A não perder!». Repito: é mesmo a não perder. E até me atrevo a acrescentar mais uma razão: porque esta versão da Lisístrata, peça apresentada pela primeira vez em 411 a. C. (isto é, há 2500 anos!…), mostra à evidência que o Teatro jamais pode morrer!  

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