ÓPERA DA INAÇÃO NACIONAL

O ESPETÁCULO ONDE O POVO PAGA O BILHETE E A ORQUESTRA FOGE COM OS INSTRUMENTOS

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Imagem real de autor desconhecido (disponível na net)

Senhoras e senhores, sintonizem as vossas televisões e preparem as vossas carteiras. Está em cena, com lotação esgotada e financiamento público vitalício, a grandiosa Ópera da Inação Nacional. Um drama lírico onde os tenores do hemiciclo e os barítonos das comissões parlamentares cantam as dores do país enquanto afinam o seu próprio património.

Ato I: O Milagre da Multiplicação dos Tachos

O libreto abre com o habitual coro de lamentações. A Saúde tosse, a Escola reprova e a Habitação desaba. Mas não temam! O Ministro em funções, cuja única competência conhecida é a capacidade de deslizar por entre as perguntas dos jornalistas como uma enguia em azeite, tem a solução perfeita: a fundação de um novo Grupo de Trabalho.

O banquete da comissão é servido prontamente. Reúnem-se os sábios do regime em tertúlias gastronómicas altamente qualificadas, pagas com o IVA do teu pacote de massa. O objetivo? Estudar de forma profunda e exaustiva a melhor forma de empurrar o problema com a barriga até às férias de verão.

A estrutura é estéril, mas a máquina é fértil. Num passe de mágica burocrático, a secretária de um gabinete qualquer ganha uma nova gaveta. Não para guardar processos, mas para alojar o novo assessor, o consultor júnior e o afilhado do secretário de Estado, garantindo que o nepotismo nacional continua a ser o maior motor de emprego jovem do país.

Ato II: O Mistério da Pista Sem Fim

O segundo ato é uma coreografia cómica dedicada à aviação nacional. O Aeroporto de Lisboa transformou-se num artefacto arqueológico vivo. Há meio século que os sucessivos elencos estudam se os aviões devem aterrar em Alcochete, no Montijo, na Ota, ou nas traseiras da casa da avó de um influente deputado.

A humanidade já mapeou o genoma humano, enviou robôs para Marte e inventou a inteligência artificial, mas o decisor político português continua perplexo, de bússola invertida na mão, sem saber onde raio há de colocar uma tira de asfalto. É a nossa vadiagem burocrática elevada a património imaterial da UNESCO.

Ato III: A Contabilidade Criativa e os Dez Euros da Salvação

Quando a economia cresce uns míseros milímetros devido ao turismo desenfreado, os senhores do fato cinzento sobem ao palco com o peito inchado, reivindicando para si o mérito do “milagre económico”. No entanto, se o país afunda no barómetro europeu, a culpa é subitamente do vento, da conjuntura internacional ou, claro, do “pesado legado” deixado pelo bando anterior.

A ópera atinge o seu clímax dramático na conferência de imprensa. Confrontado com o sumiço de fundos comunitários, o governante saca da sua melhor cartada populista. Com uma lágrima ao canto do olho e a voz trémula de falsa compaixão, anuncia: “Aumentámos dez euros à pensão da vossa velhota!”

O público aplaude, o idoso faz contas à vida e percebe que os dez euros não chegam para nada, enquanto nos bastidores, o amigo mafioso de colarinho branco limpa o suor da testa com uma nota de quinhentos, vinda diretamente do milhão desviado do orçamento de Estado.

Epílogo: A Teta Sagrada

A cortina desce, mas o espetáculo nunca termina. A verdade nua e crua é que Portugal não pode dar-se ao luxo de funcionar. Se os problemas fossem realmente resolvidos, os doutores do assento vitalício morreriam de tédio. A ineficácia é o oxigénio desta classe. Afinal, para que serve um salvador da pátria se a pátria, por milagre, deixar de precisar de ser salva? A teta nacional continuará a dar leite, a plebe continuará a pagar o espetáculo e a ópera da inação garantirá, por muitos e bons anos, o seu merecido aplauso.

Imagem real de autor desconhecido (disponível na net) de sala de espetáculos em Portugal

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