ANTÓNIO VIDIGAL

TODOS OS NOMES TÊM UM ROSTO

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José Saramago, na obra Todos os nomes, refletiu de forma magistral sobre a forma como somos “inscritos” enquanto seres humanos, lamentando o modo absolutamente incompleto como este registo é feito e, sobretudo, continuado, já que o que fica é meramente um nome, eventualmente imutável, e alguns dados como certas datas, não ficando guardada a evolução dos rostos e muito menos as muitas experiências porque todos passamos ao longo da vida. Para a Conservatória, o indivíduo resume-se a um nome e a algumas datas, ignorando-se a complexidade da vida, das experiências e das emoções que verdadeiramente definem cada pessoa.

António Vidigal e as suas obras

É precisamente contra essa simplificação que surge a exposição de retratos de António Vidigal, atualmente patente na Academia Nacional de Belas Artes em Lisboa, afirmando-se como um gesto de resistência e valorização da identidade humana na sua dimensão plena.

A obra de António Vidigal propõe, assim, uma alternativa ao anonimato burocrático, transformando o retrato escultórico num espaço de memória, experiência e tempo. Em vez de fixar apenas um momento ou uma aparência, as suas esculturas procuram captar a essência do retratado: aquilo que este viveu, sentiu e construiu ao longo da vida.

António Vidigal – Dulcina Carvalho, 1967 (bronze)

Assim, cada peça torna-se uma representação viva, onde a identidade não é estática, mas antes o resultado de um percurso. Ao contrário de uma abordagem meramente naturalista, que se limitaria à reprodução fiel de traços físicos, Vidigal desenvolve uma relação próxima com os seus retratados. Muitos pertencem ao seu círculo íntimo, como os seus filhos, ou ao seu universo de amizades, o que permite uma profundidade emocional e uma compreensão mais rica das suas características. Essa proximidade traduz-se em retratos que ultrapassam a aparência, revelando traços marcantes e identitários, mas sem jamais cair na caricatura.

António Vidigal – Retrato dos filhos António, 1967 (mármore); João. 1993 (bronze); Frederica. 1985 (bronze); Luísa 1990 (madeira)
António Vidigal – José Cândido. 2010 (bronze); Natália Correia Guedes. 2025 (gesso); Joaquim Lima de Carvalho. 2025 (gesso)

Mesmo em trabalhos por encomenda, onde a intimidade poderia ser menor, o escultor procura sempre captar o âmago do retratado. Exemplos como os retratos de Eunice Muñoz ou de Ruy de Carvalho demonstram essa capacidade de ir além da representação superficial, explorando dimensões mais profundas da personalidade.

António Vidigal – Eunice Muñoz, 2022 (jesmonite); Ruy de Carvalho. 2022 (jesmonite)

Dois aspetos fundamentais atravessam toda a obra de António Vidigal: a constante vontade de se desafiar e a experimentação. Desde a sua formação académica, o escultor optou por caminhos mais exigentes, recusando soluções fáceis e procurando sempre expandir os limites da sua prática. Um exemplo disso é a realização de retratos em talhe direto na pedra, processo complexo que exige grande domínio técnico. A experimentação estende-se também aos materiais e técnicas. Vidigal explora uma grande diversidade de suportes — barro, madeira, mármore, granito, bronze, entre outros — tirando partido das suas qualidades expressivas.

António Vidigal – Artur Barreto, 1974 (gesso patinado); Isabel Azevedo, 1961 (mogno); Luísa Constantina, 1985 (mármore negro)
António Vidigal – Garcia de Resende. 2013. (granito rosa e bronze)

Do ponto de vista estético, a obra de Vidigal não segue uma linha única. Cada retrato determina a abordagem adotada, podendo variar entre o naturalismo e a depuração formal. Em alguns casos, aproxima-se de uma tradição realista; noutros, opta por uma simplificação das formas, eliminando elementos acessórios para destacar o essencial. A obra de António Vidigal afirma-se como uma reflexão sobre a identidade humana, recusando reduções simplistas e valorizando a complexidade de cada indivíduo. Tal como sugere Saramago, o verdadeiro sentido está na busca e é essa procura persistente que define o trabalho do escultor: um esforço contínuo para captar, através da escultura, a essência daqueles que retrata. A terminar cite-se, mais uma vez, o supramencionado escritor quando afirmou «[…] que o que dá o verdadeiro sentido ao encontro é a busca e que é preciso andar muito para alcançar o que está perto.»e é exatamente este o longo percurso de António Vidigal, tão somente retratar os que lhe estão perto…

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