Parabéns. Chegámos finalmente ao auge da nossa sofisticação intelectual. Conseguimos a proeza de transformar o horror visceral em estatística higiénica. Falar de guerra hoje é um exercício de estética: discutimos o alcance de um míssil como quem aprecia a curva de um decote, e planeamos invasões com o desapego de quem joga uma partida de xadrez num domingo de chuva.
É admirável a vossa capacidade de esquecer que, por baixo do metal que brilha no satélite, existe uma coisa inconveniente chamada carne. A carne queima, sabiam? E faz um barulho bastante desagradável quando é triturada por metais de alta precisão. Mas não deixem que esse detalhe “humanitário” estrague a vossa retórica de soberania. Afinal, o que é uma criança sem pernas perante a majestade de uma fronteira redesenhada no mapa?

Continuem assim. Ignorem que a guerra não é um “tabuleiro geopolítico”, mas sim um talho a céu aberto onde o lucro de uns é pago com o tutano de outros. É fascinante observar como a humanidade se tornou especialista em eufemismos: não chamamos “assassinato em massa” quando podemos dizer “ajuste estratégico”. Não chamamos “agonia” quando podemos dizer “danos colaterais”.
O vosso aviso é este: a Natureza não tem pressa, mas tem memória. Enquanto brincam aos deuses com os vossos botões de pânico, o chão que pisam prepara-se para vos engolir a todos – generais e poetas, culpados e cúmplices. Se o vosso objetivo é provar que a inteligência foi um erro evolutivo, descansem: a prova está entregue e o veredito é de uma vacuidade absoluta.
Preparem as medalhas para os vossos esqueletos. Serão as decorações mais brilhantes num deserto onde ninguém restará para governar.




