Queria começar esta mensagem de congratulações por uma sonata de piano, um solo de violino, ou tão-só o som do vento a bater na ramagem das florestas que atravessou.
Estou “apaixonada” por si desde uma altura especial que não vai adivinhar, já a minha admiração estava sedimentada por anos de visionamento de documentários seus. Deitada no chão da sala, de cotovelos fincados no tapete e mãos a segurarem o rosto, acabava sempre por hesitar entre escolher a peculiar voz do radialista, o encanto do jovem que ousava interagir com os gorilas no Ruanda, ou a coragem do naturalista que viajava até aos confins do mapa para contar a mais bela história do mundo até então desconhecido.
Ganhou o inteligente produtor da BBC em séries que acumulavam audiências, ou o biólogo que deu a conhecer espécies novas e ensinou que todas precisam de afecto e interacção? Engana-se, muito estimado Sir David Attenborough. Ganhou aquele explorador de jeans esfiapados nas bainhas, que pediu uma tesousa à equipa e em segundos, arrimando uma perna de cada vez a uma rocha, cortava duas barras do mesmo tamanho, direitinhas, e ficava com umas calças novas.
Que homem, pensava eu arrebatada nos meus vinte e poucos anos! Inteligente, culto, destemido, prático. E terminado o encantamento da transmissão, percorria o seu trajecto de vida desde o nascimento em Londres até à criaçao em Leicester, depois a formação em Cambridge e de novo em Londres onde tudo recomeçaria. Sem esquecer o menino do meio de três rapazes que colecionava fósseis e pedras, estimulado pela peça de âmbar oferecida por uma das duas irmãs adoptivas, antes órfã da I Grande Guerra.
Parabéns pelos 100 anos, querido Sir David Attenborough, ainda não tinha dito.
A julgar pelo pensamento do seu adorado Darwin, tem-se revelado um dos mais aptos para resistir e manter tão saudável e frutuosa longevidade. Talvez pelo seu amor à Natureza, que em algumas latitudes ainda terá a marca das suas pegadas. Talvez pela superior humanidade que tanto vaticinou o declínio do planeta pelas más escolhas dos líderes.
Da minha admiração crescente e dos seus ensinamentos, fazia eco até outros que viriam a conhecer os mares, a explorar o mundo natural em caminhadas e fotografias de animais em liberdade, a promover discussões sobre o destino desta Casa chamada Terra, tão maltratada pela avidez ignorante de uns quantos, muitos…

Sedentos do lucro fácil e imediato, esquecem o futuro de gerações jovens que podem ser os seus filhos. E aposto que, se os questionassem sobre o assunto, eles haviam de afirmar que preferiam poder respirar em paz, a gastar o dinheiro sujo em unidades de saúde para tentarem sobreviver a doenças causadas pelo envenenamento do planeta. E para quê, se como dizia Sir David a Anderson Cooper numa entrevista da série 60 Minutos, o homem dispõe de infinitas fontes de energia que chegam para todos? Tantas advertências certeiras de que caminhávamos para o declínio. E caminhamos… ou talvez não, porque teremos de confiar: por nós, pelas crianças e jovens que precisam de solidariedade.
Hoje não tenho bolo de chocolate para lhe oferecer, nem o aroma de bacon acabado de fritar, nem bolachas de manteiga ainda quentes para acompanharem um chá. Tenho a certeza de que não haveria vontade para saborear tantas calorias, nem lhe chegaria o tempo para ler mensagens de todo o mundo que acompanhassem guloseimas, ainda que envolvidas as primeiras em papel de Amor, Admiração e Respeito.
Como prenda sem enfeites lembro-lhe o registo de memórias ao longo de uma vida de aventura na Terra e no Mar, mais de setenta anos, que nos têm sido oferecidas em livro e em imagens…O som das vagas dos oceanos que admirava, a quebrarem nas praias onde auscultava a pujança dessa força…Intervalos de silêncio em observação reverente a ínfimos seres que na sua mão pareciam ter alma.

Retenho o seu sorriso a partilhar empatia com espécies ditas perigosas, ou acariciando seres vivos raros como se acariciasse crianças. Guardo a sua imagem a mergulhar junto aos recifes de coral na Austrália, antes e depois da acção nociva do homem. Admiro e guardo como relíquia a sua forma de sorver a vida em gargalhadas sonoras.
Lembra-se de uma conversa da série A Vida no Nosso Planeta, no seu jardim com Sir Michael Palin? Falavamdas jovens que o reconheceram na base do Monte Kinabalu, em Bornéu e da que, levantando a saia, lhe mostrou a coxa tatuada com o seu rosto, acabando ambos, e os espectadores em minha casa, em gargalhadas irreprimíveis.
O meu, o nosso presente aqui deste canto de Portugal, Sir David Attenborough, é a certeza de que a sua mensagem é uma caixa de ressonância que, de vez em quando, soa dentro da nossa consciência de seres ínfimos no grande rio do Universo. Basta folhear um livro seu, rever um vídeo…
Parabéns. Saúde e Alegria bastantes para ouvir o coro do mundo, quase em uníssono, num cântico de AGRADECIMENTO.
Helena



