Não se hesitou a barafustar contra o senhor de mãos leves que avivara, a trouxe-mouxe, o letreiro patente nas aduelas do portal lateral norte da igreja matriz de Valhelhas, freguesia do concelho da Guarda: https://duaslinhas.pt/2026/03/crime-de-lesa-patrimonio/
Avivar com tinta uma inscrição – embora possa ser, à partida, uma louvável atitude – é gesto que implica conhecimento rigoroso do que, primitivamente, ali fora gravado, a fim de não se cometerem erros.
Em Epigrafia (a ciência que estuda os letreiros gravados na pedra) considera-se esse um estratagema condenável. E compreende-se porquê. É que a incidência da luz (solar ou artificial) pode realçar uns traços e ocultar outros. Pior ainda – como se documenta na foto em anexo – se o estudioso, para mostrar que a sua leitura é que está certa, pega numa caneta de feltro e pinta o texto na própria foto!…

Voltando a Valhelhas, importa corrigir o que se escreveu nessa crónica do dia 25 de Março acerca da data da consagração do templo. O letreiro fora, de facto, já estudado por Mário Barroca na sua monumental obra Epigrafia Medieval Portuguesa, datada do ano 2000.
O conceituado epigrafista explicou-nos:
1º) O que fora lido como um 2, era, afinal, um L (dito ‘uncial’, em linguagem técnica).
2º) O “sinal ondulado” parecido com um til não passava da forma como, no século XII, se desenhava o «a» aberto, «forma medieval de indicar o género feminino do numeral e, por isso, surge por cima do M, dos CC, do LX e do XII, para ser lido como ‘era milésima ducentésima sexagésima décima segunda’.
3º) Finalmente, é normal, no século XIII, utilizar-se uma forma de M para indicar o numeral na menção da era, e outra forma em texto corrido. Vá lá entender-se estes antigos!…
Em conclusão: deve ler-se «era de 1262», isto é, ano da era de César, o que corresponde a 1224 da era cristã. Portanto, nos primórdios do reinado de el-rei D. Sancho II, «O Piedoso».

nota da redação:
No decorrer das várias publicações sobre este assunto, tentámos “calçar os sapatos” do pintor de letreiros antigos gravados na pedra. Alguma razão deve haver para que, em Valhelhas, quase todas as pedras gravadas tenham sido tratadas desta maneira. Parece-nos evidente que a principal preocupação foi tentar mostrar o que estava escrito.
Provavelmente, alguém da Junta de Freguesia deve ter pensado que, tal como estavam, ninguém entendia o que tinha sido escrito naquelas pedras. É latim, mas podia ser mandarim. Ninguém percebia os riscos, e o pintor que se prestou ao serviço também não. E o problema é mesmo esse. Os epigrafistas clamam contra o crime cometido, porque agora ninguém percebe o que lá escreveram, mas já ninguém percebia…
Os escritos não são compreensíveis para o comum dos mortais e os epigrafistas funcionam em circuito fechado, é um trabalho que não costuma sair do meio académico. E assim se perdeu a oportunidade de ser um epigrafista a “avivar” os vários letreiros medievais de Valhelhas.





