“A MENINA DAS CAMÉLIAS”

UMA POÉTICA EM LUZ E SOMBRA

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O pintor José de Almeida e Silva e o seu "A Menina das Camélias". Imagem construída com recurso a IA.

José de Almeida e Silva, o “Silva Pintor” como foi chamado, viveu em Viseu entre 1864 e 1945. A sua actividade quase se perdeu nos inventários da arte portuguesa;  legou-nos, porém, incrível produção artística, onde a pintura sobreleva, em número e aparato, as suas dispersas criações, que se estendem pela escrita polimorfa em livros, jornais e álbuns, ilustrados, sobretudo, com as caricaturas de uma sociedade do seu tempo. Ocasional foi a sua abordagem da escultura com um busto de Camões.

Presença assídua, em Lisboa, nas Exposições da Sociedade Nacional de Belas Artes – onde se detinha, lápis em punho, escrevendo notas demoradas –, mostrou também a sua arte em Paris ou no Brasil, e o seu quadro, as Hortaliceiras, hoje no Museu Nacional Grão Vasco, recebeu até “Medalha de ouro”.

Deter-nos-emos, agora, apenas face a um dos quadros do inventário do Museu Nacional Grão Vasco, retrato a óleo sobre tela de título A Menina das Camélias, que o artista produziu em 1912.

Não desfruta da atenção que os visitantes dão a essoutra menina, a Menina de Madrazo, de que já aqui se falou. Porventura, o visitante apenas se deterá, por instantes, olhando essa menina envergonhada, que suspendeu a marcha, aconchegou ao peito o bonito ramo de camélias que levava e cativa ficara do gesto ternurento do pintor que a eternizou no seu retrato.

A Menina das Camélias (1912) – José de Almeida e Silva

Era tempo de Páscoa, das camélias abertas nos jardins da cidade – o do Paço dos Bispos, que ainda floresce, hoje, ao Fontelo – ou nos recatados jardins do Solar dos Treixedos ou da Casa do Cerrado, onde as últimas fidalgas demoravam.

Ia de caminho, a menina, talvez a casa da madrinha que lhe ofertara como prenda, nessa Páscoa, os brincos de oiro que ela agora lhe vai mostrar, tímida e envergonhada que ela vai.

Suspende a marcha, a menina, fica-se a olhar o ternurento gesto do pintor que ali se quedou também, cativo do olhar melancólico da criança, antes que possa voltar a caminhar, soltas as mãos, sem desprendê-las do ramo fresco das camélias com que retribui a prenda bonita da madrinha.

E lá seguirá, rua fora, até à casa grande da madrinha. A mãe vestiu-lhe um casaquinho de lã verde, que ainda havia frio em Abril, penteou-lhe o cabelo como ela gostava, ela disse que sabia o caminho, a casa da madrinha não ficava longe.

Almeida e Silva lavou os pincéis, mandou fazer uma moldura como aquela com que fechava os seus tesouros nessa arca imaginal do seu estúdio, onde, às vezes, distraído, deixava entrar um atrevido raio de sol.

Talvez tenha saído para a margem da cidade, há sempre uns velhos que regressam da horta, um velho roçando mato. Ter-se-á cruzado, no caminho, com a pequena lavradeira a que chamou Flor Agreste e terá ido mais longe, quem sabe, passear nas áleas do Fontelo, terá descido, não sei, à Ponte da Azenha onde há sempre lavadeiras batendo roupa branca, enquanto cantam virtuosas canções de romanceiro.

Almeida e Silva raramente gostava de sair da sua terra.

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