ANTES DA MALA DE CARTÃO, LEVAVAM PEDRAS TUMULARES

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Imagem descritiva, construída com recurso IA

Pode, efectivamente, parecer estranho, mas aconteceu. E a história foi-nos brilhantemente contada por António Correia e Silva, no decorrer das II Jornadas Portuguesas de Gastronomia recentemente realizadas em Cascais, a que houve oportunidade de aqui nos referirmos.

Emigra-se, de facto, para um outro país com a ideia habitual de, na idade da reforma, se voltar à terra natal. Pode, porém, emigrar-se na intenção de lá ficar até à morte.

Lápide sepulcral de Cristóvão Leitão Cabral, falecido aos 26 dias de Outubro do ano de 1608, igreja do Rosário da Cidade Velha, ilha de Santiago. Foto de Rui Carita

António Correia e Silva – professor na Universidade de Cabo Verde, sociólogo e historiador, autor de livros como Histórias de um Sahel Insular (1995), Nos Tempos do Porto Grande do Mindelo (2001), O Tempo das Cidades-Porto (1999), Cabo Verde, Combates pela História (2004) – depois de afirmar que a cachupa (a rica e a pobre) constituía, como Cesária Évora, um dos ex-libris de Cabo Verde, deu conta de que, quando chegou o momento de sair gente de Portugal para Cabo Verde, ia a família toda e, com ela, as pedras tumulares, porque se sabia não haver nas ilhas rochas que servissem para o efeito. Isso prova bem, salientou Correia e Silva, ser intenção de ali toda a família ficar.

De facto, se hoje observarmos as fichas patrimoniais das pedras sepulcrais, por exemplo, da cidade velha de Santiago, da igreja do convento de S. Francisco ou  da igreja do Rosário, lemos, neste caso, sem surpresa que se diz ser de «mármore continental europeu».

Fotografia à esquerda: na Cidade Velha de Santiago, igreja do Convento de S. Francisco, ilha de Santiago. Fotografia à direita: na igreja do Rosário da Cidade Velha, ilha de Santiago

Foi, na verdade, notável a comunicação do professor cabo-verdiano, explicando como é surpresa grande para um cabo-verdiano recém-chegado a Portugal ter uma semana de chuva, quando, lá, chover é fenómeno bem raro; explicando que os navios negreiros vindos da Guiné também levavam milho maís (o único que se adapta nas ilhas) e arroz; que se promoveu a cultura de laranjeiras e limoeiros, fundamentais para a tripulação dos navios, a fim de se combater o escorbuto; que foi sempre fundamental a produção de gado caprino, dada a sua resistência às vissicitudes da aridez do clima, gado de que tudo se aproveita, constando a carne salgada como elemento necessário da dieta alimentar.

Aproveitou para se referir a duas festas tradicionais a que a gastronomia está intrinsecamente ligada: a Festa das Cinzas, especialmente intensa na ilha de Santiago, que marca o início da Quaresma com um grande almoço comunitário e familiar, com pratos tradicionais como peixe seco, xerém, cuscuz com mel, couve feijão com ovos escalfados, leite de coco, simbolizando partilha, união e tradição. E a festa da altura da Páscoa, em que se celebra a afirmação da vida e cada homem oferece à mulher um frasco de mel.

Terminou sublinhando que Cabo Verde tem a sua história e o novo turismo já não é apenas o de sol-e-praia, mas também o do património histórico e o do resgate da gastronomia tradicional. Note-se que, em relação às referidas pedras tumulares, terá que existir um movimento de verdadeiro salvamento da maior parte delas, na medida em que é fácil, por serem ‘velharias’ sem outro préstimo, acabarem reaproveitadas a trouxe-mouxe noutros edifícios. E assim se corre o risco de perder uma memória milenar. Louve-se, por conseguinte, a actividade da historiadora Vera Félix Mariz por, num colóquio internacional realizado, em Lisboa, em Junho de 2012, ter focado o caso da igreja da Nossa Senhora do Rosário, como exemplo de um património que deve ser devidamente valorizado; foi daí que tomei a liberdade de copiar a imagem das pedras sepulcrais que estão a servir de degraus de acesso ao adro duma das igrejas.

                                                                                                         

4 COMENTÁRIOS

  1. Bastaria este artigo para nos colocar perante o que são as andanças e paranças de muito património por esse mundo, leve ou pesado, mas móvel, apesar de tudo.
    Com alguma ironia, apetece dizer que anda meio mundo a pensar como, de que modo, com que dinheiro e para quem, salvaguardar este património que é uma fonte que guarda muita e variada informação histórica. Sei do que falo.
    Em Cabo Verde, estas belas e viajadas lápides sepulcrais constituem peças exóticas com uma carga documental acrescida pela sua própria diáspora. Surpreendente. Aprendi e fico agradecida.

  2. É claro que é preciso proteger esse património constituído por “As Pedras que Falam”, título de um belo livro do autor deste texto.
    No caso presente as pedras tumulares, as estelas, os marcos, sempre cobiçados pelos amigos do alheio, são um património valioso que as vereações do poder local deviam vigiar de forma séria.
    Como medida de dissuasão, obrigar a remetê-las ao lugar donde provêm, ou conservá-las em lugar seguro (museus) aplicada a respectiva coima ao infractor.
    Vê-las servir de degrau, ou sítio de passagem seja aonde for, com o risco de se apagarem as inscrições, jamais…

  3. Ana Leonor Pereira
    8 de abril de 2026 11:17
    BOA SURPRESA!
    GOSTEI!

    Lígia Inês Gambini
    8 de abril de 2026 11:22
    Que interessante. Prevenidos!

    Dora Barradas
    8 de abril de 2026 12:07
    Que belo artigo, cheio de curiosidades . Gostei muito !!
    Grata pela partilha

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