Comentava, há dias, com uma colega o facto de amigo comum não responder às mensagens, mesmo àquelas a que, em princípio, ele teria, por obrigação de ofício, uma palavra a dizer.
– Está morto! – retorquiu-me ela.
– Morto, como?
– Não sabes? É a nova moda: faz-se de conta que se não existe, não se atende o telefone, não se fala para ninguém…
Fiquei abismado.
E raciocinei: de facto, três ou quatro dos meus antigos alunos, agora já colegas, com quem eu tivera maior relacionamento, inclusive de trabalho, morreram desta maneira!…
Metem-me dó! Ficam velhos antes do tempo. Carregam, sozinhos, pesada cruz, quando havia cireneus capazes de os ajudar, «Olá, bom dia! Como estás?»… Não há bons-dias nem boas-noites, nem festas felizes!…
Tenho o privilégio de o construtor da minha casa ter usado tijolos furados, na parede exterior da minha casa-de-banho. Encanta-me o final da tarde, quando o sol começa a pôr-se, lá para as bandas do Guincho, porque, nessa altura, começa o rodopiar de umas duas dezenas de pardais. Pousam na buganvília, na romãzeira, nos fios do telefone e da eletricidade. Conversam animadamente uns com os outros. E, pouco a pouco, entra cada um num dos buracos. Saem. Dão uma espreitadela aos demais e acabam por se aninhar cada um no seu buraco.
Encanta-me vê-los, aconchegados, mesmo junto ao vidro interior. Uma comunidade!
Durante a jornada – que começa para eles assim que alvorece e vão à vida – não sei se andam juntos ou não. Sei que passam a noite connosco.
Vou para a cama, amiúde, a pensar nesses meus colegas e amigos que não são como os “meus” pardais: não convivem, estão mortos antes de morrer!



