Escrevemos, num dos últimos dias, a propósito da materialidade de uma tábua pintada, cerca de 1535, por Gaspar Vaz, colaborador que foi de Vasco Fernandes, o Grão Vasco, documento que, no solene espaço do Museu Nacional Grão Vasco, se afirma como repositório de múltiplas lições que nela se cumprem. Hoje completamos a tarefa de interpretar o quadro.

Nessa imaginal Sala Grande de uma residência da Renascença, que habitualmente se situava no 1.º piso dos palácios, o piano nobile onde se recebiam os convidados, à volta dessa mesa montada sobre cavaletes recobertos pela preciosa tapeçaria dos mercados do Oriente e a toalha de linho adquirida na Flandres sentaram-se para tranquila refeição, quem sabe, o senhor dos nobres aposentos, Lázaro, figura interpretada como sendo a do encomendante, o Bispo D. Miguel da Silva, sentado à mão direita do Mestre. À mão esquerda de Cristo, o convidado principal, ao qual se destinou o lugar de honra, sentam-se os amigos que trouxera consigo: Pedro, a quem haveria de prometer as chaves da sua igreja, e João, que conhecemos como o “discípulo amado”.
A refeição estaria pronta a servir, que tal afirma a presença de uma serviçal que se suspendeu a caminho da mesa, nas mãos a iguaria, bem como o mordomo ou serviçal que sobe do jardim, com um cestinho das deliciosas peras, que colheu, ao tempo em que Marta parece ter entrado de rompante, ao ver que a irmã, Maria, que até a teria ajudado a preparar a refeição, a tinha deixado agora, ao chegar dos convidados e ali estava, sentada sobre uma esteira, deduzo, escutando, simplesmente escutando, atenta, a conversação do irmão e dos convidados, deles colhendo, certamente, informação acerca da nova doutrina que o Mestre trouxera. Apoia o rosto sobre o braço, que não lhe importam os ruídos exteriores, abandona a outra mão sobre o colo, onde tem pousado um livro, talvez da antiga Lei e escuta. Simplesmente escuta. Não era ainda o tempo em que uma mulher tivesse voz.
Marta surge da cozinha, não diz nada à irmã, mas estende, numa rispidez mal contida, estende o braço na direcção de Maria e é ao amigo da casa, Cristo, que ela havia decerto acompanhado tantas vezes, que parece censurar:
– Senhor, não se te dá que minha irmã me deixe só a servir? Diz-lhe, pois, que me venha ajudar”.
Lázaro, ao lado, suspende-se, estranhando, decerto, a atitude da irmã que compreende, mas não diz nada. Cristo, o amigo, não se perturba. Estende mansamente a mão direita para Marta e com a outra mão faz um manso sinal para que Pedro e João suspendam a conversa que entre os dois acontece.
E tranquiliza Marta, advertindo-a com bonomia:
– Marta, Marta, andas inquieta e perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte que lhe não será tirada.
Cristo põe, deste modo, em correlação, duas atitudes na prática religiosa discutidas ao tempo, a prática da vida contemplativa a que Maria parece aspirar versus a vida activa que Marta escolheu, as duas, de qualquer modo, vias salvíficas.
Para terminar uma gostosa visita ao quadro, vale um atento olhar sobre a paisagem do janelão iluminado por um cenário urbano, que interpreta o desenho de uma gravura de Albrecht Dürer de título o Regresso do Filho Pródigo. E ainda, sobre a direita alta do quadro, nesse quadro dentro do quadro, vale a pena ler um episódio da vida de Santa Marta que, desembarcando em Marselha com Maria e Lázaro, intenta a pregação de uma doutrina nova. Confrontada com a terrível história da Tarrasca, que afligia as gentes de Tarrascon, conduz o dragão, aspergindo-o com água-benta, até Arles onde é morto. Facilitada ficava a sua missão apostólica na região. Imagem que interpreta uma outra gravura de Albrecht Dürer, Melancolia I.

Um quadro para ver num Museu que, como este, integra diversos “Tesouros Nacionais”.



