Nenhuma sociedade séria pode banalizar a perda de uma vida humana em circunstâncias violentas. E nenhuma autoridade responsável pode fugir à obrigação moral, política e institucional de exigir que toda a verdade seja apurada.
É precisamente por isso que importa dizer, com clareza, o que muitos preferem esconder no meio da emoção: uma tragédia desta natureza não pode ser transformada, à pressa, num tribunal político de rua, num laboratório de agitação ou numa plataforma de manipulação da opinião pública.
Desde as primeiras horas após o crime, instalou-se no espaço público um vox pop carregado de insinuações, certezas sem prova e acusações pré-fabricadas, apontando de imediato o dedo ao militares, ao actual quadro de poder e até ao ex-Presidente Úmaro Sissoco Embaló.
Mas uma pergunta séria impõe-se: com base em quê?
Num Estado que se quer reconstruir, a verdade não pode ser substituída por boatos organizados, nem a justiça por convicções partidárias. Acusar antes de investigar não é coragem cívica, é irresponsabilidade política.
Há, aliás, um dado que qualquer observador minimamente racional deve considerar: num momento em que o actual regime procura consolidar-se, reduzir tensões, recuperar confiança interna e obter sinais crescentes de compreensão e apoio por parte dos principais parceiros de desenvolvimento da Guiné-Bissau, seria politicamente contraditório e estrategicamente absurdo admitir, sem prova, que teria interesse em provocar um acto com tamanho potencial desestabilizador.
Isso não significa absolver ninguém antecipadamente. Significa apenas recusar a preguiça intelectual de transformar suspeitas em sentença. O mesmo vale para o silêncio do ex-Presidente Úmaro Sissoco Embaló. Num ambiente emocionalmente carregado, não é intelectualmente sério nem moralmente aceitável converter o silêncio político de uma figura influente em prova de culpa ou cumplicidade. Em democracia, a responsabilidade criminal não se constrói por ódio, nem por conveniência narrativa.
Mais preocupante ainda é o facto de, quase em simultâneo, certos actores políticos, comentadores militantes e activistas habituais terem surgido com mensagens convergentes, tentando empurrar o país para uma leitura étnico-política do caso, como se a dor de uma família e a indignação de uma comunidade pudessem ser transformadas em combustível para agendas de confronto.
A Guiné-Bissau deve rejeitar com firmeza qualquer tentativa de incitamento emocional dirigido à comunidade balanta ou a qualquer outra comunidade nacional. Nenhuma etnia deve ser usada como tropa de choque de ambições políticas. Nenhuma dor colectiva deve ser transformada em arma de desestabilização.
É legítimo pedir justiça. É legítimo exigir transparência. É legítimo desconfiar de versões fáceis. Mas não é legítimo incendiar o país para colher dividendos políticos.

Também por isso, algumas intervenções externas, inclusive vindas de círculos políticos em Portugal, deveriam ser mais responsáveis. A Guiné-Bissau não precisa de paternalismo moral em formato digital, nem de julgamentos instantâneos feitos a partir de redes sociais, sem acesso aos factos, sem responsabilidade directa no terreno e sem preocupação real com as consequências internas de cada palavra pronunciada.
O país precisa, sim, de coisas simples e decisivas: investigação séria, sem zonas de protecção, sem intocáveis e sem encobrimentos. Justiça efectiva, sejam quem forem os autores, mandantes, cúmplices ou beneficiários. Serenidade nacional, porque a verdade não nasce do pânico, nem da propaganda, nem da histeria colectiva.
Neste ponto, importa reconhecer que o Governo e o Primeiro-Ministro assumiram a posição institucional correcta: condenaram o crime, pediram investigação até às últimas consequências e defenderam o apuramento integral dos factos. Essa é, neste momento, a única postura compatível com a responsabilidade de Estado. Quem realmente ama a Guiné-Bissau não deve perguntar primeiro: “quem me convém acusar?”. Deve perguntar: “como evitar que mais uma morte seja usada para empurrar o país para o abismo?
A verdade deve ser dita. A justiça deve ser feita. Mas a Nação não pode ser entregue ao rumor, ao cálculo e à exploração da dor. A Guiné-Bissau precisa de sangue-frio, verdade, sentido de Estado, mas não de incendiários disfarçados de indignados.



